segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sonhos


Ouvia música abundantemente quando era criança. Durante muitos anos lá em casa os meus pais tiveram um gosto por musica de certa forma apurado, para pessoas humildes que eram, ambos com nada mais do que a 4ª classe e uma vida inteira de trabalho repetitivo e pouco desafiante para a mente. A minha mãe era apaixonada por Julio Iglésias, Paco Bandeira e Carlos Paião. Já o meu pai tinha gostos musicais bastante mais difusos, e normalmente aos sábados de tarde chegava a casa com um novo single do que estava nos tops da altura, o que podia ser uma coisa absolutamente brilhante como o No More Lonely Nights do Paul McCartney ou algo tão reles e estupidificante como o "Umbadá" do Jorge Fernando. Na Rua da Boa Viagem, na baixa do Funchal havia uma "discoteca" que ficava mais ou menos entre a tasca onde o meu pai passava intermináveis horas a beber vinho e a discutir futebol e a paragem de autocarros onde eventualmente haveria algum que nos levaria a casa. Lembro-me de ser uma loja com prateleiras enormes que se estendiam desde o chão até ao tecto, com uma selecção imensa de singles e lp's dos mais variados artistas, e na montra mostravam a capa dos discos que naquele momento estavam mais em voga, que correspondiam normalmente ao que se ouvia lá dentro, num volume bastante generoso. Normalmente a senhora que estava ao balcão aconselhava-nos acerca dos mais recentes hits, e o meu pai que habitualmente não era sensível a impetos consumistas mas que tinha um fraquinho por música, engrossava semana após semana a nossa colecção de discos de vinil lá em casa. Por isso não era estranho que passasse tardes inteiras a trocar os discos de vinil na nossa aparelhagem, quando não estava a passar nada de jeito na RTP-Madeira ou quando me fartava de brincar com os meus carrinhos da Majorette, ou dos meus aviões de papel. Das músicas estrangeiras pouco entendia, gostava da música e da sonoridade das letras, tentava imitar o som das pessoas a falar num estrangeirês improvisado e cantarolava pela casa. No entanto lembro-me do impacto que as musicas do Carlos Paião tinham, e de como me ponham a pensar no meu futuro e no que me estava reservado. Lembro-me especialmente de ouvir os "Versos de Amor", e sonhar com o dia em que ia encontrar alguém que me fizesse viver aquilo que ele falava nas suas canções. Sinto que grande parte dos meus sonhos não só eram inspirados pelas suas letras como também decorriam ao som das suas músicas. Sempre sonhei imenso, e os meus sonhos sempre foram extremamente intensos. Quando era criança ficava feliz com a hora de ir para a cama, porque isso significava que a minha mãe ia me embrulhar num cobertor e me colocar entre os lençois da minha cama que era sempre impecavelmente bem feita (nunca mais na minha vida dormi em lençóis tão suaves e perfumados) e ia sonhar. Podia ser uma coboiada no faroeste, uma aventura numa nave espacial, ou um romance com uma menina imaginária pela qual me apaixonava perdidamente. Todas essas aventuras eram tão estranhamente realistas que quase era mais empolgante estar a dormir do que estar acordado, porque no mundo dos sonhos não tinha as limitações que invariávelmente a realidade me imponha.
Lembro-me de várias raparigas por quem secretamente me apaixonei em criança, e de como nunca tive coragem para fazer nada senão escrever bilhetinhos secretos, oferecer coisas no recreio da escola, secretamente esperar que elas notassem em mim e se apaixonassem, mas era um rapaz franzino e tudo menos alguém popular na escola, por isso até ao meu sexto ano não soube de nenhuma que tivesse sucumbido aos meus encantos, nem mesmo da única vez que cheio de coragem, peguei no dinheiro que a minha mãe me tinha dado para o lanche e fui comprar um lápis á papelaria abaixo da escola para oferecer á Lara, que era a minha paixoneta da escola primária. Como também não tinha grande talento em termos de diálogo com as raparigas, nem me lembro se lhe cheguei a explicar porque é que lhe tinha oferecido uma coisa, se calhar fiquei á espera que percebesse as minhas intenções e caísse nos meus braços. Que aconteceu depois? Bem... nada, acho que ela estava mais interessada nas borrachas de cheiro, nos estojos coloridos e em saltar á corda com as outras meninas do recreio, não tanto em andar de mãos dadas comigo e me mandar corações cor-de-rosa escritos em papelinhos com cheiro a morango. No entanto quando chegava á noite e ia dormir, tinha um sonho recorrente com uma menina imaginária, com quem andava de mãos dadas e passeava pela cidade, sem medo dos rufias da escola e certo que o sentimento era recíproco, e muitas vezes depois, entre os sonhos da Guerra das Estrelas e do Indiana Jones, sonhava com ela novamente. Não me lembro se ela tinha nome, mas sei que quando ia dormir anseava reencontrá-la. Entretanto deixei de sonhar com ela, e eventualmente também que vivia nos filmes do George Lucas, e passei a sonhar mais com a realidade, coisa que digamos já não tem tanta piada... chega a uma altura em que entendes que a vida não é só feita de momentos fantásticos, e os teus sonhos absorvem essa noção, o que para uma pessoa que sonha intensamente por vezes é extremamente doloroso.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Como se treinam os elefantes de circo


Nunca entrei num circo, nunca foi algo que me interessasse. Desde criança que no natal os meus pais levavam-me ao parque almirante reis, na baixa do Funchal para andar de carrocel e comer uma fartura, e passava sempre pela beira do circo, que era de longe a maior e mais imponente atracção do parque. Não me lembro de alguma vez ter pedido aos meus pais para lá entrar, se calhar porque no exterior do parque os animais eram guardados em jaulas minúsculas, e não tinham aspecto de ser bem tratados.
Lembro-me especialmente de olhar para um tigre que tinha uns olhos tão tristes que me doeu o coração - frágil, magro, cansado... tudo o que ele queria certamente não era entrar para o próximo espetáculo e fazer meia dúzia de truques para o gáudio da populaça.

Já que estamos em época natalícia, em se costuma levar as crianças ao circo, vale a pena parar para analisar que tipo de comportamentos é que estamos a patrocinar. Querem circo a sério? vão aqui.

Circo com animais não!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Maf já é advogada

Momento solene este, já estavamos á espera disto á 11 anos. Agora já podes mandar gente para a cadeia á vontade :)

Estava tão convencido do teu sucesso que á hora que soube da notícia já tinha aviado uma série de pints de cerveja.

Os meu sinceros parabéns, tu mereces. A profissão vai ganhar um recurso de peso, é totalmente a tua cara.

Beijinhos! Estou muito feliz por ti!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Mais uma moeda, mais uma viagem!"




A vida não para! Cheguei á menos de um mês aqui a Londres, e ontem já comecei no meu segundo trabalho.
A empresa para onde vim trabalhar originalmente digamos que não era grande coisa, ainda assim mês e meio de trabalho ainda deu para fazer amigos, por isso a experiência é sempre positiva. Seja como for, a velha máxima de que Deus não fecha uma porta sem abrir outra aplica-se aqui que nem uma luva. Sensívelmente na mesma altura em que cheguei á conclusão não era ali que queria continuar a trabalhar, recebi um telefonema a perguntar se queria ir para outro lado, e poucos dias depois estava a entregar a minha primeira carta de demissão escrita em estrangeiro.

A verdade é que esta experiência de trabalhar nas galés, por mais ruim que me parecesse á partida, foi o que me possibilitou vir trabalhar para o (dizem) escritório mais fixe de Londres.

Acho sinceramente que isto vai ser fixe :)

domingo, 23 de outubro de 2011

Mudança de vida




Nunca o pasquim ficou tão abandonado como neste período, no entanto cá estou eu de novo para por isto para a frente. Mau era que o meu projecto "literário" de 4 anos deixasse de existir principalmente quando abraço uma mudança de vida tão abrupta como a que ocorreu desde o mês passado.

Para quem não sabe, em setembro achei por bem me despedir do meu emprego, entregar a minha casa alugada, vender o meu carro, despedir-me dos meus amigos em Lisboa, enfiar todas as minhas tralhas que não deram para dar ou vender dentro de uma garagem e embarcar numa aventura que me trouxe até Londres. A verdade é que estava farto da minha vidinha inerte - Lisboa mantinha-me meio que ligado ás máquinas... sugava-me a vida mas só o suficiente para me deixar entorpecido, e meio que tive uma epifania (como a do Homer Simpson no Alasca). A coisa proporcionou-se, a vida precisava de um abanão valente, e pronto, daí até aqui passou-se um mês.

Em algumas coisas achei que iria ser mais fácil, noutras achei que iria ser mais difícil. Comecemos pelos pertences: Achei que iria ser muito mais difícil me desfazer de algumas coisas que fui comprando e acumulando desde que cheguei a Lisboa... a minha televisão, a minha cama, o meu sofá, as minhas estantes, cadeiras, mesas, micro-ondas, tudo o que suei a trabalhar para conseguir, foi despachado ás três pancadas. O facto de as coisas todas terem ido para os meus amigos, acabou se calhar por suavizar um bocado o cenário de me despojar de pertences, mas francamente é uma sensação libertadora. Coisas prendem-te a sítios, e não acrescentam nada á nossa vida. A minha vida são experiências e pessoas, não objectos. Se deixas de fazer alguma coisa que sonhas porque tens um sofá de 3 metros que não tens onde ponha... algo vai mal. Custou-me um pouco abandonar o meu carro, se calhar acabei por me afeiçoar um pouco a ele - suei para pagá-lo estes anos, e era uma coisa da qual me orgulhava ter conquistado. Por mais estúpido que possa parecer, o meu carro já á muitos anos que era para mim o barómetro da minha evolução. Comprei o meu fiesta vermelho (e que saudades tenho dele), em 2000. Tinha acabado um verão em que me tinha esfolado a trabalhar, e consegui dinheiro suficiente para poder ir a Lisboa e passar um cheque de 1500 euros a uma senhora que me deu o meu primeiro carro para a mão. Não sei o que me passou pela cabeça no caminho até Braga, saí de Lisboa já devia passar da meia noite, e nunca tinha conduzido numa auto-estrada. Estava assustado, estava eufórico… pensei tantas vezes na minha mãe, e no quanto queria poder ligar para ela e dizer-lhe: “Mamã, comprei um carro!!”. Por mais ridículo que possa parecer, comprar aquele carrinho velho naquela altura foi um marco importantíssimo para mim, uma afirmação para o mundo de que não me iam deitar ao chão naquele ano… e não deitaram. E á medida que fui conseguindo trocar de carro e sempre para melhor, aquilo era a minha medalha de honra, o que me lembrava de onde já estive e de onde consegui chegar, ás minhas custas, com o meu suor.

Mas infelizmente aqui conduz-se do lado errado da estrada, e o maquinão vai para o mais novo, para quem a “herança” significará tanto como significou para mim, e para ser honesto, deixa-me muito orgulhoso poder entregar-lhe o meu carro.

Assim, desfeito de todos os meus pertences, munido de duas malas cheias de roupa, sonhos, esperanças, medos e angustias, meti-me num avião e voei para Londres, para começar mais uma etapa da minha vida, agora a 2500km de casa.

Já vivia longe de casa á 16 anos, a língua já era diferente também antes: já me tinha habituado rapidamente a não falar com o meu sotaque madeirense para fazer com que as pessoas entendessem o que dizia, quanto mais difícil seria começar a falar noutra língua? Usar Libras em vez de Euros, conduzir pela esquerda em vez da direita, usar teclados sem acentos… ah coisa fácil…

Não foi fácil, posso-vos garantir isso, mas por nenhuma das razões óbvias. Porque para ser franco menosprezei demasiado as minhas fragilidades, e quando cheguei, toda a excitação de começar uma vida nova acabou por ser substituída por uma fragilidade emocional que já nem me lembrava que tinha, e que com o passar dos dias se tornou tão avassaladora que tomou conta de mim e me enegreceu o pensamento. Passei dos piores dias da minha vida, quase bati no fundo, mas consegui-me reerguer.
Nunca nada na minha vida foi de borla. Tudo o que consegui até agora (muito ou pouco, ou muito pouco, dependendo da perspectiva de quem ajuíza), foi sempre a um preço… soube a lágrimas (muitas), a determinação (que tantas vezes faltou), a coragem. Muitas vezes é frustrante, cansativo… podia aparecer qualquer coisa de fácil na minha vida, tropeçar num bilhete premiado da lotaria, aparecer uma tia milionária que me deixasse uma herança fabulosa… prefiro se calhar achar que só damos real valor ás coisas que nos custam obter… é fácil de concordar com isso e dá-nos um compreensível alívio…

Devagarinho chego sempre lá, é a lição que muitas vezes deixo de lembrar, e há sempre solução para tudo tirando morte e impostos, e se a coisa não vai, empurra-se.

Londres é uma cidade linda, fervilha, é cosmopolita. Vale a pena viver e trabalhar cá e testemunhar a vida que corre entre as suas veias, ver toda a mistura de raças e culturas que vagueia por estas ruas. Londres encontra-te na rua, dá-te um beijo na boca e uma valente estalada… nunca te é indiferente. Precisava desta cidade como do pão para a boca. Não demorei demasiado tempo em Lisboa, demorei o tempo que tive que demorar, tudo acontece por uma razão, nos desígnios marados de um universo que ao jeito de um enredo recambolesco e profundamente perturbado de um filme do Tarantino, tem sempre qualquer coisa para tu cumprires.

Nenhuma porta se fecha sem que se outra abra, tenho certeza disso.

sábado, 20 de agosto de 2011

Ideias avulsas

Estava a sair do metro quando uma rapariga me pediu ajuda para carregar uma mala com rodinhas pelas escadas acima. Nas costas tinha uma mega mochila de campismo com todo o tipo de coisas acopladas a esta - saco cama, cobertor, garrafa de água… na frente segurava uma menina de cabelos loiros e olhos azuis, de vestidinho amarelo, descalça, daquelas crianças que só de olhar dá vontade de dar um sorriso de orelha a orelha. Com uma mão segurava-a e dava-lhe de mamar, com outra arrastava o trolley que trazia na mão. Estava sozinha, a sair do metro do jardim zoológico e foi a caminho do autocarro, para fazer mais uma viagem de 350 km rumo ao norte. “Cuidado, está pesada. Está cheia de cenouras” - disse-me. Realmente aquilo era de um peso bruto… com o meu metro e oitenta e caparro que aguenta uma saca de semilhas ás costas, a verdade é que até tive alguma dificuldade a pegar naquilo com uma só mão, e esforcei-me para não dar o ar de que achava que aquilo era pesado, afinal sou homem, e aos homens, o esforço para carregar uma coisa que uma rapariga leva bem, é uma coisa que não assiste. Ajudei-a a subir as escadas do metro e esperei por ela novamente até que chegasse para descê-las. Fui me embora depois e deixei-a sozinha, um pouco á pressa porque tinha onde estar, mas não deixei de me sentir um bocado estúpido, quase lisboeta. Olhei para trás, vi que a moça estava a acartar aquela parafernália toda mais ou menos tranquilamente, e segui o meu caminho. Pus-me a pensar se na minha terra teria feito o mesmo. A minha mãe não me educou para ser frio e distante, e olhar para os outros sem sentir um bocado do seu fardo. Para todos os efeitos (bons ou maus) sou uma pessoa com consciência, e no entanto, parece que ao fim de 6 anos de vida em Lisboa, estou-me devagarinho a tornar um deles, um ser amorfo que faz a sua vidinha indiferente em relação aos outros.

Lisboa é uma cidade absolutamente linda, tem charme, tem luz… banhada por um rio que se estende até perder de vista, que brilha, que fascina… a cidade do fado, da saudade, da vida fervilhante nas ruelas apertadas do bairro alto e da mouraria, dos mil e uns restaurantes de sabores vibrantes que se encontram em cada esquina da capital.

Adoro Lisboa, infelizmente é um amor não correspondido. Lisboa é uma madrasta que não quer saber daqueles que não nasceram do seu seio, daqueles que tais enteados lhe foram impingidos por qualquer particularidade da vida. Lisboa não quer saber de ti, tem a sua família por perto, os seus amigos de infância, os seus colegas de escola. Lisboa já tem amigos suficientes, não precisa de mais.

Lisboa é uma cidade de passagem, não é sítio para ficar muito tempo. Suga-nos a vida, extrai-nos a humanidade. Quando dás por ti, já lhe deste anos da tua vida e não obtiveste nada em retorno, continuas o mesmo enteado que foi recebido na família por favor e dorme debaixo da escadaria no rés-do-chão, vê as festas escondido para não envergonhar ninguém, come restos de frango do jantar de ontem enquanto da penumbra observa o regabofe dos privilegiados.

Ao fim de seis anos nesta terra, resolvi dizer basta e decidir rumar a outra. Levo no coração os  muitos amigos que cá fiz, os poucos que ainda cá estão e os muitos que se espalharam por esse mundo fora. Não sou egoísta ao ponto de não admitir que esta cidade me deu amigos que vou levar no coração para a minha sepultura, experiências que de outro modo nunca teria, e hoje sou uma pessoa bastante mais completa do que era em 2005. Mas está na hora de partir, deixar tudo para trás e começar tudo de novo, mais um capítulo da minha vida. Apesar de parte de mim chorar, é com imensa excitação que encaro esta nova etapa.

Assim, a partír do mês que vem, o pasquim vai passar a ser escrito de outra capital. Espero compartilhar aqui com o meu selecto mas muito estimado auditório as experiências que for tendo nesta nova aventura.

E que volte a não ter receio em ajudar pessoas na rua, se calhar há alguns sítios onde não corres o risco de ser olhado com desconfiança por demonstrares preocupação para com o teu semelhante.

Ah, e quem chama de fraco ao sexo bonito… tenha vergonha, e leia o post que coloquei antes deste.