quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Acentos e outras parvoíces

O Luís escrevia o seu nome com um V
Escrevo os meus textos no momento em que me ocorrem algumas ideias que decido partilhar com o mundo. Ás vezes pairam sobre a minha cabeça ás duas e tal da manhã, outras vezes de manhãzinha quando estou a tomar duche, outras vezes quando estou sentado na casa de banho. Não é específico de uma hora, local ou altura. Passo meses sem escrever nada e depois de repente apetece-me partilhar os meus 2 cêntimos com o mundo.
Tento escrever os meus textos com o máximo de correcção e respeito pela lingua indígena da pátria que me pariu, mas... o estimado leitor volta e meia há de fazer o favor de ignorar um ou outro lapso, erro ou asneira genérica. Tenho que escrever estes posts com rapidez suficiente para que formem uma espécie de raciocínio linear, cujo fim não destoe muito do princípio e que estejam prontos num pequeno espaço de tempo - porque como diria o grande artista Hérman José, "eu é mais bolos", ou no meu caso específico: "eu é mais computadores". Depois se paro e vou fazer qualquer outra coisa - chapéu! Lá se foi o timming.

Na escola, sempre tive excelentes notas em inglês, mesmo sem nunca ter aprendido grande coisa acerca dos formalismos específicos da língua. Se me soava bem eu punha lá, se não soava é porque devia estar errado. Então, a resposta para qualquer exercício num teste de inglês era alcançada pelo mesmo método que tantas vezes aplico na minha vida e na minha profissão: tentativa e erro aliados a alguma dose de fé. Já no português nunca fui grande espingarda, parte porque do fundo do meu âmago eu abominava as obras chatas de gajos como o Almeida Garrett, parte porque nunca concordei muito com as interpretações que faziam á obra de Camões, parte porque acho que a escrita é uma fabulosa invenção humana que serviu mais que tudo para amplificar os limites da criatividade e da imaginação, não para metê-la num espartilho de regras inúteis, e sem qualquer nexo com a realidade.

Diria o leitor que me conhece e até é meio nerd: "Mas Nélio, como é tu podes dizer isso quando o próprio objecto do teu trabalho reside na escrita de frases numa linguagem técnica, cujo sucesso depende tanto de executarem o processo de forma previsível tanto quanto terem que estar sintaticamente correctas?"

Pois, linguagens de programação não servem propriamente para livros sobre amor, ódio, ciúme, filosofia ou futebol. Servem para resolver problemas práticos com processos exactos - línguas servem para partilhar pensamentos, sons, ideias, e tanto na minha imaginação como nos meus diálogos, o "a" que está dizer a alguém que "vá á fava" e o "a" que está em " anos que digo isto" soa exactamente da mesma forma.

O guardião da língua portuguesa ao ler isto reagirá da mesma forma que um adepto do porto ás escutas do Pinto da Costa: gritará "Heresia!", "Ultrage!",  desligará imediatamente o seu computador e correrá para o conforto do seu volume das Viagens na minha terra, onde encontrará serenidade espiritual e claro - nunca mais voltará cá ao pasquim. Outros dirão que é por causa do meu sotaque madeirense, da minha influência brasileira ou simplesmente na minha incapacidade em aprender a língua de Saramago de forma correcta. Esse senhor - ilustre comuna que foi viver para as Canárias e de quando em vez mandava as suas postas de pescada por forma a que o povo comprasse os seus livros e jornalistas tivessem sobre o que escrever - não usava pontos, escrevia parágrafos de folhas inteiras que eram a maneira que ele tinha de partilhar os seus pensamentos com o mundo. Nunca ninguém o elogiou pela fantástica correcção sintática dos seus textos, ou recebeu um Nobel por aplicar com mestria o acordo ortográfico nos seus textos.
Não me querendo comparar a Saramago de qualquer forma ou feitio, longe disso, apenas digo que a língua é um veículo para as minhas ideias, e um veículo para humanos, não para computadores que necessitam que as coisas sejam simples e sintáticamente correctas. Um humano compreende ideias e interpreta-as a partir de frases soltas, imagens, sugestões, sonhos, gestos... não as processa através de TCP/IP.

Sendo assim, o leitor que ainda não apagou o endereço do pasquim dos seus bookmarks não há de levar a mal que os meus posts mandem uma calinada ou outra, não ponham os acentos na inclinação certa, não metam "h's" onde eles não são precisos e escreva exactamente com um "c".

Declaro portanto, que o pasquim será escrito segundo a minha versão do acordo ortográfico (aquele que acordo comigo próprio), mais nenhuma.

Ah, e deixem que mande a Florbela Espanca á merda: aquilo dos sonetos - em que se contam linhas e sílabas e constrói-se a coisa de forma direitinha para que caiba perfeitamente num molde de bolos comprado no ikea é, digamos assim, parvo!
Quando estava no décimo primeiro ano do ensino secundário achava que se calhar era eu que não tinha experiência de vida suficiente e não atingia a profundidade da coisa. O professor Valentim delirava com estas coisas e era gajo de parecer perceber do que falava. Hoje aos 35 anos, acho que todo o conceito de restringir raciocínio literário em formação futebolística de 4x3x3 nada mais que um delírio masoquista. Um dia ainda se vai provar que o Antero de Quental deu dois tiros na cabeça porque não conseguiu encaixar a sua ultima obra literária em grupos de tercetos e oitavas - um tiro só não chegava, e cada verso tinha que ter dez sílabas.

1 comentário:

Anónimo disse...

Investiga lá a diferença entre 'há' e 'à' porque 'á' sozinho não existe, só como parte de uma palavra tipo 'chegará'. Na dúvida coloca à em vez de á