quarta-feira, 18 de julho de 2012

O meu pai


Quando eu era criança o meu pai que era alcoólico inveterado (mas nunca assumido), guardava sempre uma nota de cinco contos dobrada dentro da carta de condução, que era daquelas antigas, côr-de-rosa, que se dobravam em três. Porquê? - Era costume nos domingos á noite a polícia estar a fazer operações stop na recta do miradouro das neves, que fica na zona este do Funchal e o carro do meu pai que já devia provavelmente ser reconhecido pelos senhores agentes, era sempre mandado parar. Lembro-me claramente de um agente que costumava estar nessas ditas "operações" um tipo alto, magro, com um ar cruel e de educação rude. A minha mãe sabia-lhe o nome, eu confesso que me esqueci. Ele olhava para dentro do carro, cruzava o olhar comigo e fazia-me sentir um arrepio na espinha, como se a qualquer altura fosse me tirar dali e levar para a cadeia.
Outra coisa de que nunca hei de esquecer é hálito que o meu pai tinha, aquele cheiro fétido de vinho americano caseiro misturado com qualquer bebida espirituosa a que lhe chegasse a mão sentia-se ao longe. No entanto, o sr. agente apenas segurava a carta de condução do meu pai por breves instantes, devolvendo-a á mão do meu pai e ordenando-lhe que prosseguisse viagem. Com certeza deveria ter um problema qualquer olfactivo que o impedia de cheirar o álcool, e também um problema de vista que fazia com que não percebesse que aquele rubor na face era derivado a muitos copos de vinho pela goela abaixo. Coitadinho do Sr. Polícia…
Os primeiros anos de que me lembro de mim foram sempre assim, fazer a viagem desde a casa dos meus avós nos domingos á noite, com o meu pai totalmente embriagado, sem saber se íamos ser parados pela polícia ou se íamos cair por uma ravina abaixo, pedindo por tudo o que era mais sagrado que fosse mais devagar - o que muito raramente sortia o efeito desejado, normalmente o contrário - quanto mais pedia-mos para ele ir mais devagar, mais ele acelerava. Nunca tentei perceber o porquê, tenho a certeza que ele não nos odiava, provavelmente apenas odiava-se a si próprio...

...e eventualmente deixei de acompanhar os meus pais nas viagens para a terra dos meus avós, porque na minha adolescência descobri coisas melhores para fazer e porque não tinha vontade nenhuma de reencontrar a patrulha da polícia no miradouro das neves e ver sempre o mesmo polícia a me fixar nos olhos com aquele ar de bandido.

Enquanto tivemos algum dinheiro para fazer a nossa vida, o meu pai continuou a guardar aquela carta de condução côr-de-rosa no porta documentos que trazia no bolso das calças, junto com o cartão de sócio do Nacional, e as fotos de mim, do meu irmão e da minha mãe. Apenas quando o vício, a vida desregrada e a doença da minha mãe nos deixaram sem dinheiro, ele foi apanhado numa operação stop e tiraram-lhe a carta.

Morreu três meses depois, sozinho numa cama de hospital, tanto vitima de si próprio quanto de uma sociedade que na verdade nunca quis saber, nem dele nem de nós.

Fico feliz por saber que o seu vicio aliado á sua profissão nunca fizeram com que outras pessoas se magoassem na estrada, por um misto de sorte ou qualquer protecção divina, o camião de uma forma ou de outra chegou sempre intacto á beira de casa, mesmo que o motorista que o acabara de estacionar pouco discernimento tinha para ultrapassar o desafio que era introduzir a chave de casa na fechadura, e roda-la até se abrir.

Por incrível que pareça passei anos sem perceber o quanto tudo isto havia afectado a minha personalidade, foi preciso alguma idade, perspectiva e ajuda profissional para chegar a essa conclusão.

Gostava de saber que perdoei o meu pai por nos ter destruído a vida, mas lá no fundo sei que isso ainda não aconteceu - os fantasmas voltam sempre para me aterrorizar o sono muitas mais vezes do que gostaria. Não consigo mudar o passado, ele é como é.

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