terça-feira, 10 de julho de 2012

"Chefe, pode-me arranjar um galão e uma sandes"



Já não passava na tasquinha do lado da câmara municipal pelo menos desde os meus tempos do secundário. Nessa altura eu ia para lá com os meus amigos para tomar café e fumar cigarros depois da escola. Os 300 escudos que os meus pais me proporcionavam diariamente davam para pagar a bica, para meio maço de marlboro e para o croissant misto no bar da escola da levada. De vez em quando, se o mês estivesse a correr muito bem para a minha mãe, lá vinha uma nota de 500 paus e aí já dava para comprar um maço de tabaco inteiro, ou comer uma sandes mista especial que lá se vendia, um verdadeiro manjar dos deuses, pois juntamente com o queijo e fiambre, incluía ovo, alface e tomate, coisa moderna na altura.

Lá pelas seis ou sete da tarde saíamos da escola e iamos para lá e ficávamos até que a necessidade de ir para casa, para uns pelas oito da noite, para mim que tinha um ambiente em casa mais... flexível até ás nove da noite ou arriscando levar um raspanete, dez da noite. A verdade é que olhando para trás, o Funchal sempre foi uma cidade muito tranquila para se viver. Nada de grave alguma vez se passava, e para um rapaz de quatorze ou quinze anos, poucas coisas podiam correr mal. Saíamos da escola e andavamos em bandos de oito ou dez. Falávamos de raparigas, da matiné no reflex do próximo fim de semana e qual delas íamos tentar beijar. Falávamos também de jogos de computador, de desporto, da escola, da stôra de português que era boa todos os dias, da Manuela Ferreira Leite, que era ministra de educação do Cavaco e já na altura mostrava uma total descontexualizuacao para com o cargo que ocupava (diz que percebia mais de finanças, nunca se soube bem).

Falávamos de ir para a universidade no continente, de tirar curso A, B, C ou D e ser bem sucedido, tirar carta, ter um carro desportivo.

De toda essa malta com quem ia á tasquinha do lado da câmara municipal pouco sei hoje - uns ficaram na terra, casaram, tiveram filhos, ficaram gordos, carecas com dentes podres; outros foram para a marinha e hoje vestem camisas de rede com lantejoulas, e ainda houve quem optasse por montar empresas que foram indo á falência. Uns mataram-se em acidentes de estrada, outros atiraram-se da ponte dos socorridos ou do pináculo. Grande parte abandonou a terra, uns a fugir de uma rapariga que engravidaram, outros das consequências de comportamentos de legalidade duvidosa. Foram outros tantos que para a universidade no continente e por lá ficaram, constituíram família, mudaram o sotaque, vão de vez em quando á terra: visitam a família, mostram os filhos á mãe, revêem alguns amigos antigos, vão ás vespas beber uma imperial para se sentirem um bocadinho adolescentes.

Para mim o objectivo é ir para os copos com o meu irmão, rever amigos de décadas no Jam, atirar-me para o sofá da minha tia no caniço e não fazer nenhum durante um dia todo e abraçar as minhas princesinhas quando chegam da escola e ir para casa da minha madrinha comer pão de casa e batata doce assada e ouvir as historias de como o seu neto já tem dentes, chama "avó" e com bravura atravessa a sala utilizando com mais ou menos dificuldade a sua recém-descoberta técnica de andar de pé.

Fazer o caminho de volta á realidade é duro. Subir a escada, olhar para trás quando se entra no avião e respirar a ultima lufada de ar, sentir o cheiro da minha terra pela ultima vez em muitos muitos meses enquanto não se consegue voltar. E por fim cerrar os dentes e pôr os óculos de sol, tentado manter a postura e segurar a lágrima que teima em querer cair.

Para a maior parte dos Madeirenses, o destino é sentir saudade, telefonar para casa todos os dias para saber se o primo esta melhor de saúde, se as meninas tiveram bem na escola, se o irmão já tomou juízo, se a tias já falam uma com a outra outravez. E tanto uma saudade pungente quanto uma necessidade avassaladora de se manter ligado, de as pessoas se lembrarem, de não cair no esquecimento, de continuar a ser da terra ainda que passando a maior parte do tempo fora, de continuar a dizer que ser emigrante não e só uma escolha que se fez, mas uma necessidade... um grito surdo como que a pedir: não se esqueçam de mim, eu ainda sou daí.

Os donos da Madeira garantiram que tão cedo não vou poder voltar. Criaram uma economia do faz-de-conta, baseada na trafulhice e desonestidade, asfaltando e esburacando a ilha por forma a deslumbrar o povo como quem acalma um bebé com uma roca ou com uma chupeta que foi mergulhada em mel, apenas para o tornar dócil e maleável, enquanto se desviava quantias de dinheiro faraónicas para contas offshore, ou para as empresas pessoais dos homens do regime, esses que hoje vivem confortavelmente e passeiam em classe executiva. Não há trabalho para mim lá, não há futuro para mim lá, resta-me pegar no telefone e marcar 00 351 ... e perguntar pelas pessoas.

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