domingo, 23 de outubro de 2011

Mudança de vida




Nunca o pasquim ficou tão abandonado como neste período, no entanto cá estou eu de novo para por isto para a frente. Mau era que o meu projecto "literário" de 4 anos deixasse de existir principalmente quando abraço uma mudança de vida tão abrupta como a que ocorreu desde o mês passado.

Para quem não sabe, em setembro achei por bem me despedir do meu emprego, entregar a minha casa alugada, vender o meu carro, despedir-me dos meus amigos em Lisboa, enfiar todas as minhas tralhas que não deram para dar ou vender dentro de uma garagem e embarcar numa aventura que me trouxe até Londres. A verdade é que estava farto da minha vidinha inerte - Lisboa mantinha-me meio que ligado ás máquinas... sugava-me a vida mas só o suficiente para me deixar entorpecido, e meio que tive uma epifania (como a do Homer Simpson no Alasca). A coisa proporcionou-se, a vida precisava de um abanão valente, e pronto, daí até aqui passou-se um mês.

Em algumas coisas achei que iria ser mais fácil, noutras achei que iria ser mais difícil. Comecemos pelos pertences: Achei que iria ser muito mais difícil me desfazer de algumas coisas que fui comprando e acumulando desde que cheguei a Lisboa... a minha televisão, a minha cama, o meu sofá, as minhas estantes, cadeiras, mesas, micro-ondas, tudo o que suei a trabalhar para conseguir, foi despachado ás três pancadas. O facto de as coisas todas terem ido para os meus amigos, acabou se calhar por suavizar um bocado o cenário de me despojar de pertences, mas francamente é uma sensação libertadora. Coisas prendem-te a sítios, e não acrescentam nada á nossa vida. A minha vida são experiências e pessoas, não objectos. Se deixas de fazer alguma coisa que sonhas porque tens um sofá de 3 metros que não tens onde ponha... algo vai mal. Custou-me um pouco abandonar o meu carro, se calhar acabei por me afeiçoar um pouco a ele - suei para pagá-lo estes anos, e era uma coisa da qual me orgulhava ter conquistado. Por mais estúpido que possa parecer, o meu carro já á muitos anos que era para mim o barómetro da minha evolução. Comprei o meu fiesta vermelho (e que saudades tenho dele), em 2000. Tinha acabado um verão em que me tinha esfolado a trabalhar, e consegui dinheiro suficiente para poder ir a Lisboa e passar um cheque de 1500 euros a uma senhora que me deu o meu primeiro carro para a mão. Não sei o que me passou pela cabeça no caminho até Braga, saí de Lisboa já devia passar da meia noite, e nunca tinha conduzido numa auto-estrada. Estava assustado, estava eufórico… pensei tantas vezes na minha mãe, e no quanto queria poder ligar para ela e dizer-lhe: “Mamã, comprei um carro!!”. Por mais ridículo que possa parecer, comprar aquele carrinho velho naquela altura foi um marco importantíssimo para mim, uma afirmação para o mundo de que não me iam deitar ao chão naquele ano… e não deitaram. E á medida que fui conseguindo trocar de carro e sempre para melhor, aquilo era a minha medalha de honra, o que me lembrava de onde já estive e de onde consegui chegar, ás minhas custas, com o meu suor.

Mas infelizmente aqui conduz-se do lado errado da estrada, e o maquinão vai para o mais novo, para quem a “herança” significará tanto como significou para mim, e para ser honesto, deixa-me muito orgulhoso poder entregar-lhe o meu carro.

Assim, desfeito de todos os meus pertences, munido de duas malas cheias de roupa, sonhos, esperanças, medos e angustias, meti-me num avião e voei para Londres, para começar mais uma etapa da minha vida, agora a 2500km de casa.

Já vivia longe de casa á 16 anos, a língua já era diferente também antes: já me tinha habituado rapidamente a não falar com o meu sotaque madeirense para fazer com que as pessoas entendessem o que dizia, quanto mais difícil seria começar a falar noutra língua? Usar Libras em vez de Euros, conduzir pela esquerda em vez da direita, usar teclados sem acentos… ah coisa fácil…

Não foi fácil, posso-vos garantir isso, mas por nenhuma das razões óbvias. Porque para ser franco menosprezei demasiado as minhas fragilidades, e quando cheguei, toda a excitação de começar uma vida nova acabou por ser substituída por uma fragilidade emocional que já nem me lembrava que tinha, e que com o passar dos dias se tornou tão avassaladora que tomou conta de mim e me enegreceu o pensamento. Passei dos piores dias da minha vida, quase bati no fundo, mas consegui-me reerguer.
Nunca nada na minha vida foi de borla. Tudo o que consegui até agora (muito ou pouco, ou muito pouco, dependendo da perspectiva de quem ajuíza), foi sempre a um preço… soube a lágrimas (muitas), a determinação (que tantas vezes faltou), a coragem. Muitas vezes é frustrante, cansativo… podia aparecer qualquer coisa de fácil na minha vida, tropeçar num bilhete premiado da lotaria, aparecer uma tia milionária que me deixasse uma herança fabulosa… prefiro se calhar achar que só damos real valor ás coisas que nos custam obter… é fácil de concordar com isso e dá-nos um compreensível alívio…

Devagarinho chego sempre lá, é a lição que muitas vezes deixo de lembrar, e há sempre solução para tudo tirando morte e impostos, e se a coisa não vai, empurra-se.

Londres é uma cidade linda, fervilha, é cosmopolita. Vale a pena viver e trabalhar cá e testemunhar a vida que corre entre as suas veias, ver toda a mistura de raças e culturas que vagueia por estas ruas. Londres encontra-te na rua, dá-te um beijo na boca e uma valente estalada… nunca te é indiferente. Precisava desta cidade como do pão para a boca. Não demorei demasiado tempo em Lisboa, demorei o tempo que tive que demorar, tudo acontece por uma razão, nos desígnios marados de um universo que ao jeito de um enredo recambolesco e profundamente perturbado de um filme do Tarantino, tem sempre qualquer coisa para tu cumprires.

Nenhuma porta se fecha sem que se outra abra, tenho certeza disso.

5 comentários:

Pinky disse...

Uma parte de Lisboa sentirá sempre a tua falta... saudades mil!

Filipa disse...

Boa sorte, mereces o melhor que a vida tem para te oferecer ;)

Neuza Neves disse...

Consegues sempre emocionar-me através das tuas palavras.
Desejo-te o melhor, meu conterrâneo e amigo! Fica a promessa de uma visita a terras de sua majestade.
Muitos beijinhos.

Marie disse...

"Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse.
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...

...always look on the bright side of life...
...Always look on the light side of life"

;)

Minha louca vida disse...

Querido amigo,
Adorei suas palavras, embora tenha demorado tanto a vê-las. Assim como tu, eu tb estive afastada desses ares. Mas embora atrasada, te desejo toda a sorte do mundo nessa nova (que não é mais tão nova) empreitada. Sinto-me orgulhosa de ter conquistado mais esse sonho!! Vc merece!!