sábado, 20 de agosto de 2011

Ideias avulsas

Estava a sair do metro quando uma rapariga me pediu ajuda para carregar uma mala com rodinhas pelas escadas acima. Nas costas tinha uma mega mochila de campismo com todo o tipo de coisas acopladas a esta - saco cama, cobertor, garrafa de água… na frente segurava uma menina de cabelos loiros e olhos azuis, de vestidinho amarelo, descalça, daquelas crianças que só de olhar dá vontade de dar um sorriso de orelha a orelha. Com uma mão segurava-a e dava-lhe de mamar, com outra arrastava o trolley que trazia na mão. Estava sozinha, a sair do metro do jardim zoológico e foi a caminho do autocarro, para fazer mais uma viagem de 350 km rumo ao norte. “Cuidado, está pesada. Está cheia de cenouras” - disse-me. Realmente aquilo era de um peso bruto… com o meu metro e oitenta e caparro que aguenta uma saca de semilhas ás costas, a verdade é que até tive alguma dificuldade a pegar naquilo com uma só mão, e esforcei-me para não dar o ar de que achava que aquilo era pesado, afinal sou homem, e aos homens, o esforço para carregar uma coisa que uma rapariga leva bem, é uma coisa que não assiste. Ajudei-a a subir as escadas do metro e esperei por ela novamente até que chegasse para descê-las. Fui me embora depois e deixei-a sozinha, um pouco á pressa porque tinha onde estar, mas não deixei de me sentir um bocado estúpido, quase lisboeta. Olhei para trás, vi que a moça estava a acartar aquela parafernália toda mais ou menos tranquilamente, e segui o meu caminho. Pus-me a pensar se na minha terra teria feito o mesmo. A minha mãe não me educou para ser frio e distante, e olhar para os outros sem sentir um bocado do seu fardo. Para todos os efeitos (bons ou maus) sou uma pessoa com consciência, e no entanto, parece que ao fim de 6 anos de vida em Lisboa, estou-me devagarinho a tornar um deles, um ser amorfo que faz a sua vidinha indiferente em relação aos outros.

Lisboa é uma cidade absolutamente linda, tem charme, tem luz… banhada por um rio que se estende até perder de vista, que brilha, que fascina… a cidade do fado, da saudade, da vida fervilhante nas ruelas apertadas do bairro alto e da mouraria, dos mil e uns restaurantes de sabores vibrantes que se encontram em cada esquina da capital.

Adoro Lisboa, infelizmente é um amor não correspondido. Lisboa é uma madrasta que não quer saber daqueles que não nasceram do seu seio, daqueles que tais enteados lhe foram impingidos por qualquer particularidade da vida. Lisboa não quer saber de ti, tem a sua família por perto, os seus amigos de infância, os seus colegas de escola. Lisboa já tem amigos suficientes, não precisa de mais.

Lisboa é uma cidade de passagem, não é sítio para ficar muito tempo. Suga-nos a vida, extrai-nos a humanidade. Quando dás por ti, já lhe deste anos da tua vida e não obtiveste nada em retorno, continuas o mesmo enteado que foi recebido na família por favor e dorme debaixo da escadaria no rés-do-chão, vê as festas escondido para não envergonhar ninguém, come restos de frango do jantar de ontem enquanto da penumbra observa o regabofe dos privilegiados.

Ao fim de seis anos nesta terra, resolvi dizer basta e decidir rumar a outra. Levo no coração os  muitos amigos que cá fiz, os poucos que ainda cá estão e os muitos que se espalharam por esse mundo fora. Não sou egoísta ao ponto de não admitir que esta cidade me deu amigos que vou levar no coração para a minha sepultura, experiências que de outro modo nunca teria, e hoje sou uma pessoa bastante mais completa do que era em 2005. Mas está na hora de partir, deixar tudo para trás e começar tudo de novo, mais um capítulo da minha vida. Apesar de parte de mim chorar, é com imensa excitação que encaro esta nova etapa.

Assim, a partír do mês que vem, o pasquim vai passar a ser escrito de outra capital. Espero compartilhar aqui com o meu selecto mas muito estimado auditório as experiências que for tendo nesta nova aventura.

E que volte a não ter receio em ajudar pessoas na rua, se calhar há alguns sítios onde não corres o risco de ser olhado com desconfiança por demonstrares preocupação para com o teu semelhante.

Ah, e quem chama de fraco ao sexo bonito… tenha vergonha, e leia o post que coloquei antes deste.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"Isto não é conversa de engate. É até um tira-tesões. Mas é a verdade. E é bonita."


"Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo - mesmo na bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.


Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores. Nos vintes, fica-se com a certeza. Nos trintas, aprende-se a disfarçar. Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se. Nos cinquentas, começa-se a dar graças a Deus que seja assim. Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez. Geralmente as três coisas.


Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja superioridade - que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando - tem vindo a revelar-se cada vez mais. As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo. Mas, tal como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade. Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixam treinar. Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos. Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo os vai levar à escravatura vil.


Isto não é conversa de engate. É até um tira-tesões. Mas é a verdade. E é bonita."

Miguel Esteves Cardoso - Jornal Público, 8 de Março de 2009.