sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Nation of Dropouts


Confesso que ao fim do primeiro parágrafo, enquanto lia o artigo A Nation of Dropouts Shakes Europe no Wall Street Journal não deixei de sentir alguma revolta. Revolta miudinha, quase serôdia, fomentada por um patriotismo que não tenho e por uma vontade de defender um povo que, na sua mais cruel verdade, não é o meu.

Uma nação de desistentes?! Como se atrevem estes americanos arrogantes a dizer que somos uma nação de desistentes, quando temos uma história tão longa e rica, quando eles próprios têm um sistema de ensino tão antagónico e tão ridículamente exclusivo que prefere antes aceitar numa universidade um alteta que tenha jeito para o basket e o coeficiente de inteligência de uma vassoura, a permitir a entrada no ensino superior a um aluno normal cujos pais não têm dinheiro para o mandar para lá?!?

Penso uma, duas vezes, respiro fundo, relaxo... a verdade é que não interessa! Os americanos são mais famosos do que nós por serem burros e ignorantes, por terem taxas de exclusão social ao nível de um páis da África subsahariana, que não têm ensino ou educação decentes patrocinadas pelo estado como num país a sério,... como nós os europeus.

Mas... como nós? Como nós os europeus??? Nós, os vizinhos pobres e esquecidos, parentes miseráveis de uma europa snobe que tem a mania do sangue azul? Aqueles que os envergonham nas cerimónias de pompa porque não se sabem comportar?...
Afinal de contas, somos europeus por uma mera casualidade, porque ao lado de espanha ainda sobrou algum terreno que deu para plantar uma sociedade. Os espanhóis ainda tentaram vezes e vezes sem conta tomar conta disto, mas estoicamente por outras tantas vezes os escorraçamos... e pronto, resume-se a isso basicamente os nossos talentos enquanto sociedade, a partir do momento em que damos o mundo a conhecer ao mundo: bater em espanhóis.
A partir de 1600, sensivelmente, para além do tal "bater nos espanhóis que referi" - nada. Andamos a viver ás custas do Brasil, depois ás custas de Angola, Moçambique, Guiné e afis, depois ás custas da União Europeia... e agora estamos atolados em dívidas e mais ninguém nos empresta dinheiro.

Nós? Onde é que eu entro aí? Ora bem... tenho um Bilhete de Identidade amarelo que me qualifica para isso. Tive a felicidade de nascer no hospital distrital do Funchal que infelizmente faz parte de um país que me envergonha. Um país com uma história milenar, com uma cultura invejável, com feitos e feitos e feitos fabulosos mas que a meio do caminho deixou de o ser... e que afinal de contas é um país de ignorantes, chicos espertos, que reclamam por tudo e por nada mas que nunca saem da sua área de conforto para reevindicar rigorosamente nada. Um país de gente que se queixa de ter ordenados baixos mas que não faz rigorosamente nada para progredir no trabalho, um país de gente que se diz sem oportunidades de carreira mas que não faz nada para educar-se...

Com relutância, não vejo outra solução senão concordar com os americanos, e envergonhar-me de volta e meia fazer troça deles.
Tudo começa a fazer sentido, este caminho que fizemos desde o 25 de Abril de 1974 até agora - Salazar não nos transformou numa nação de ignorantes patéticos - sempre fomos, desde os primórdios. No entanto enquanto toda a (outra) europa apostava na educação dos seus cidadãos, o "grande" estadista via nesse exemplo uma séria ameaça á sua governabilidae, e com grande mestria aplicou a "proverbial" lobtomia ao seu povo, mantento uma horda de carneirinhos que não levanta uma palha contra ele. Por sorte Salazar nunca preparou própriamente a sua saída, e não fosse um movimento liberal de malta bem de vida que ali via uma excelente oportunidade de subir na vida, o seu regime iria perpetuar-se por toda a eternidade. Era uma ditadura da treta, não haviam repressões maciças, desaparecimentos, execuções como as que os nossos vizinhos sofriam ás mãos do Franco. A nós bastava-nos dar um bocadinho do que comer, permitir-nos fazer a quarta classe e deixar-nos a chafurdar na lama que ali ficavamos, felizes e contentes, não davamos trabalho nenhum. Os poucos que se destacavam... bem, destacavam-se tanto que eliminá-los éra como roubar um chupa-chupa a uma criança: siga para o tarrafal - sítio de luta, ... só não havia lugar para os filhos da puta...

Depois da instauração da democracia á 37 anos andamos a oscilar entre governos PSD e PS, que pouco mais fizeram pelo seu país a não ser pegar no dinheiro que tinhamos e que não tinhamos e apropriar-se dele. Em 1986 aconteceu algo fabuloso e juntamo-nos á União Europeia - ainda estou francamente a tentar entender como é que malta inteligente e bem educada foi caír na esparrela. Recebemos milhões e milhões de Marcos, Francos, Libras e dinheirinho jeitoso afim, que foi hábilmente empregue em asfaltar o país de norte a sul, com auto-estradas fabulosas para carros que não temos, que gastam combustível para o qual não temos dinheiro para comprar. Mas votamos sempre nos mesmos, ora nos arrogantes imbecis laranjas ora nos alegres corruptos côr-de-rosa.
Pode um político fazer o que lhe apetecer com o erário público - comprar carros de luxo, ir comprar fatos a manhattan, construir casas de férias em parques naturais,... a verdade é que nunca lhe acontece nada. O povo não quer saber, queixa-se que a vida vai mal, mas se lhe perguntarem não sabe o ultimo nome do maldito filho da puta que lhes rouba o dinheiro todos os meses para ou metê-lo ao bolso ou dar aos amigos.

Somos uma nação de gente que não sabe se governar nem sabe ser governada, e lamento dizê-lo temos a classe política á nossa imagem, a que realmente merecemos.

Agora a parte de que este não é o meu povo: estudei longos anos da minha vida, tenho gosto pelo conhecimento e tento estar sempre informado sobre aquilo que se passa á minha volta, seja num raio de 1, 10, 1000 ou 20 mil quilómetros. Nesta terra (de cegos) quem tem um olho é rei, por isso o caminho óbvio para quem tem o mínimo de inteligência é ir para a política e mandar em todos os outros, enriquecendo ás suas custas. Os outros que têm moral e inteligência, têm duas opções: ou lutam por uma guerra que já perdemos á muitos muitos anos, por um povo que nada mais faz do que apontar-lhe o dedo na rua, uns rindo-se dele outros tendo-lhe pena,... ou emigra, vai para junto de uma outra sociedade que conjuga os seus valores, os seus princípios, os seus objectivos.

Ainda assim neste país somos muitos felizmente, aqueles que olham para o mundo com espírito crítico e que tentam fazer dele um sítio melhor para viver... mas infelizmente nesta terra os acéfalos são em mais quantidade, e são organizados - vão em hordas aos domingos marcar a cruzinha no senhor do ps/d que lhes parece mais bonito, aquele que mais aparece na televisão, entre o programa do Jorge Gabriel e a telenovela. Esses meus caros, são os que mandam nesta terra, e há quem mande neles, aqueles que de nós usufruem á mais de 30 anos...

Agora vá, vão todos votar no Sócrates...

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