sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Estranho país


A Rússia fascinava-me desde criança. Vivi a minha infância nos anos 80 quando a guerra fria ainda estava meia quente, e em que se multiplicavam filmes na televisão que retratavam o herói americano contra o vilão russo. A verdade é que o estereótipo de Hollywood já na altura não era muito aceite deste lado do atlântico, e olhávamos para ambos com um misto de fascínio e descrédito, afinal parece que ignoravam que existia todo um mundo para além dos seus próprios umbigos. Ainda assim, sempre tive a ideia de que na Rússia se teria um bocadinho mais de interesse pelo conhecimento, e que se prezava a aprendizagem de cultura geral acima de tudo, e de facto tinha muito mais curiosidade em relação aos asiáticos em deterimento dos americanos, cuja imagem no mundo só veio a ser enxovalhada desde que Ronald Reagan subiu ao poder e culminando com o desastre absoluto que foi o governo de George W. Bush.

A ideia de um país que conseguia bater o pé aos americanos e ás suas políticas de total desprezo pelo mundo exterior era muito mais atractiva, e por muitas vezes vi-me a ter imensa curiosidade acerca desse país, da sua história recente e antiga, sobre a sua diversidade de línguas, culturas e etnias, sobre a sua disciplina enquanto nação e sobre o seu orgulho num país ao qual chamavam de "Mãe".

Entretanto á algumas semanas atrás finalmente decidi visitar a Rússia, transformando em realidade um sonho que pode-se dizer que vem comigo desde tenra idade, e o sentimento com que fiquei, sinceramente foi de decepção.

Estava á espera de um país com uma civilização bastante mais evoluída, disciplinada, eficiente, afinal milhares de anos de história, uma cultura riquíssima só poderia conduzir a isso, mas o que encontrei foi um povo na sua esmagadora maioria, extremamente antipático - a roçar o agressivo por vezes, desorganizado, minado pela desigualdade social e pela corrupção, e totalmente intolerante, quer para consigo próprio quer para com os estrangeiros.

Visitar a Rússia é uma tarefa que requer muito sangue frio e muita persistência, a começar pelo processo do visto. Obter um visto de entrada no país, não é bem como visitar o Brasil, ou os Estados Unidos, ou qualquer outro país dito normal. Não existem vistos "implícitos" á entrada no país, é necessário ter tudo preparado com antecedência, e ter um visto já emitido pela embaixada Russa em Portugal, coisa que também não é fácil. Acho que o conceito de turismo é algo que ainda lhes transcende, a ideia de que um estrangeiro queira abandonar o seu país e visitar a Rússia parece que lhes causa estupefacção, não por a Rússia não ser um país visitável - antes pelo contrário, têm um orgulho desmesurado no seu país - mas porque não vêm porque é que têm que tolerar estrangeiros a lhes invadir o espaço a visitar minuciosamente a sua terra e a tirar fotos a tudo.
Para visitar a Rússia não basta ter vontade, é necessário um convite para justificar o visto, um convite de uma entidade russa "idónea" que genuinamente expresse a sua vontade em receber o estrangeiro no país (por uma não tão pequena soma em rublos, é claro). Então, tendo todos os documentos necessários, o próximo desafio é conseguir chegar á embaixada e tentar dar início ao processo.
Chegado á embaixada russa, deparei-me com um pequeno aglomerado de gente á porta. Não havia filas, a ideia que fica é que a ultima pessoa que chega decora quem é que estava primeiro, e assim respeita-se uma ordem de chegada. Perguntar a um russo presente como é o funcionamento da "coisa" é totalmente indiferente - os que lhe responderem, vão dizer com um sotaque muito próprio "não falo português" e todos vão olhar-te com cara de desprezo. Pensas que é normal, fila para consulado é desagradável em todas as partes do mundo, é uma daquelas verdades absolutas, como a de todos os taxistas de aeroporto serem vigaristas. Sem respostas possíveis, e com as portas todas fechadas, só me restou esperar um pouco a ver o que acontecia, e então, passados poucos minutos apareceu um segurança á porta com ar de não russo (mas ainda assim austero e distante), ao qual rápidamente me dirigi a perguntar como é que funcionava aquilo, e então ao perceber que eu não era russo imediatamente desagravou um pouco o ar carregado que trazia de dentro e disse que já me chamava, e fê-lo. Lá dentro bastava enfrentar o funcionário da embaixada que me atendeu do outro lado de um guichêt de vidro grosso, sem qualquer abertura para comunicação que era assegurada por um intercomunicador antiquado que ligava-se quando ele carregava num botão.
A primeira coisa a reparar é que os protocolos de comunicação (e de boa educação) ocidentais não se aplicam ali. A um "bom dia" tradicional quando se inicia uma conversação mais ou menos formal, nada é respondido, apenas uma cara tão ou mais gravosa do que á segundos atrás, como se tivesse acabado de dizer um disparate.

- Era para pedir o visto de turismo para a Rússia.
- Documentos! (Disse o burocrata em tom autoritário)

Rapidamente entreguei os documentos todos, não fosse ele desistir de me dar o visto por demorar mais do que 10 segundos (afinal a fila de gente para pedir vistos contabilizava exactamente zero pessoas).
Só existem dois prazos para emissões de visto, o normal de 10 dias que custa 35 euros e o urgente de 48h que custa 70 - nem mais nem menos, e a embaixada está fechada ás tardes, ás terças-feiras, aos feriados portugueses, aos feriados russos, ás cimeiras da nato, e a todas as alturas que manifestamente não lhes dê muito jeito estar ali. Então, a não ser que se trate da coisa com muita antecedência, o provável é ter que se pagar o dobro do que seria normal.
Pagar: eis uma particularidade digna de um sketch do gato fedorento. Não se aceita dinheiro como forma de pagamento na embaixada (?!), apenas multibanco. Mas se o cidadão "optar" por pagar por multibanco, terá que lhe ser cobrado uma taxa extra de cerca de 1% do valor... É normal aparecerem cidadãos russos, que não dispôem de cartão multibanco português a pedirem a outros que lhes paguem valores em troca de dinheiro.
Dois dias depois (na verdade não são 48 horas, porque com feriados russos e portuguêses e fins de semana, 48 horas podem facilmente se traduzir em 6 dias) fui lá buscar o tão almejado passaporte com o visto lá colado, papel que custou os olhos da cara e está escrito em cirílico, mas que garante que não és expulso da russia no momento em que chegares ao aeroporto.
Todo este processo aqui resumido, demorou-me mais ou menos duas semanas, entre quatro idas á embaixada russa, com vários olhares agressivos e com várias perguntas não respondidas devia-me ter preparado para a realidade do país para onde me preparava para ir...

Sem comentários: