domingo, 14 de novembro de 2010

Adeus avó


Dez anos depois, Deus fez-lhe a vontade e fê-la partir para junto da filha e do marido. Hoje aquelas palavras de incredulidade ecoam na minha cabeça, quando no dia do funeral da filha dela, perguntava com a boca com um misto de saliva e lágrimas "porque é que Deus me deixa aqui e me leva a minha filha querida". Aquele dia foi o ultimo dia em que vi a minha Avó como sempre a conheci: forte, trabalhadora, imbatível e cheia de fé numa vida de felicidade, num Deus a quem sempre foi profundamente reverente.
Já tinha enterrado o marido sete anos antes, mas nada a preparou para enterrar uma filha, e isso destruiu-a por dentro, acabou com a esperança, com a vontade de viver. Já tinha Alzheimer num estado primário, e quando deixou-se caír na melancolia, foi como deixar-se consumir pela inevitabilidade e pedir um favor ao seu Deus que a levasse assim que pudesse.
Não pode ser mais cedo, foram dez anos a deixar-se consumir por uma doença que a foi tomando a pouco e pouco, retirando-lhe primeiro a memória, depois a noção de identidade, depois o conhecimento sobre as pessoas que a sempre a rodeavam e sempre lhe quiseram bem.
A minha avó já não me reconhecia á pelo menos uns três anos. Olhava para mim, tratava-me por "senhor". Na época para onde regrediu, ainda vivia com as suas duas filhas e com o marido, logo não fazia sentido entrar ali em casa um rapaz feito a lhe chamar de "avó". Dizia-lhe que era o Nelinho (nome pelo qual a minha família ainda me trata), o filho da Isabelinha, sua filha. Acenava a cabeça com o seu olhar doce mas desconfiado respondendo assertivamente "ahhh!!", mas ficava com a nítida impressão que ela achava que eu era maluco, e um maluco nunca se contraria.
Reconhecia quem lhe era mais próximo, a filha Maria que lhe "atentava" e o outro filho da Isabelinha, o "ilhiço".
Não são características propriamente elogiosas, mas daquelas palavras extraía-se um carinho infinito, um amor a toda a prova.
A Dona Isabel nunca foi mulher de lamechiçes. Filha mais velha de uma família de imensos (acho que eram 8) sempre foi habituada a olhar a dificuldade nos olhos e ultrapassá-la. Cedo aprendeu a trabalhar a terra que os meus bisavós tinham no Porto da Cruz, e a cuidar dos seus irmãos mais novos. Sempre tive a ideia de que "baboseira" não era coisa que se costumasse dar, por isso é que sempre foi tão avessa a mostrar as suas emoções. Em casa quem mandava ela, nunca ninguém duvidou disso. Era forte e decidida, e deixava o meu avô a uma posição mais de apenas ter poder de veto, mais do que capacidade legislativa.
Não teve as atitudes certas sempre, era por vezes demasiado rígida e castigava-nos por destruirmos-lhe as flores com a bola de futebol e outros quaisquer objectos arremessáveis que eu e o Nelson nos lembrassemos de usar nas nossas brincadeiras. Eu costumava dizer a chorar que ela gostava mais das suas plantas do que dos seus netos. Não era verdade, claro (apesar de amar plantas e ter um pequeno jardim botânico na casa do Porto da Cruz). Amava-nos e mimava-nos com todas as suas forças e protegia-nos de tudo e de todos, e fez com que a minha infância feliz tivesse a cara dela projectada em todas as lembranças. Não gostava no entanto de mostrar fraqueza, porque isso era coisa de gente pequena. Quando em cada final de verão, ia me por ao autocarro para eu voltar para o Funchal, fechava os dentes e lutava com todas as forças para não chorar, mas acabava por deixar caír uma lágrima, e quando eu olhava pela janela do autocarro e via-a a acenar-me, não deixava de reparar que o sorriso e o aceno que ela fazia por força maior, eram totalmente contrastantes com os seus olhos tristes.
Fazia uma comida maravilhosa, e uma sopa que eu simplesmente adorava. Dava-me comida na boca apesar de eu já ser mais do que auto-suficiente para pegar na colher, vendo o meu sorriso e os protestos insistentes da minha mãe que dizia que ela "estragava-me". Nunca ia dormir sem rezar o terço e sem antes deitar-me na cama de palha que tinha sido da minha mãe e da minha tia, dar-me um beijo na testa e aconchegavar-me na cama. Nunca dormi mal naquela cama dura de palha, os meus sonhos eram sempre alegres.
Tinham um casamento feliz, e uma complicidade rara. Eram os opostos, mas entendiam-se como ninguém. Nunca na minha vida ouvi-os trocarem uma palavra amarga, ou a fazerem um gesto de menor respeito para com o outro. Até quando o meu avô apanhava as suas recorrentes bebedeiras na tasca da cruz, quando caia a noite, a minha avó subia a estrada e ia buscá-lo e trazê-lo para casa. Vinha pela estrada a baixo a "trompicar", com a minha avó a segurar-lhe pelo braço para que não se afastasse demasiado da beira da estrada. Olhava para isso como a sua missão, tratar da família: primeiro os irmãos, depois os pais, o marido, as filhas e finalmente os netos.

Quando a minha mãe morreu, toda a gente nos bateu com a porta. Andei de casa em casa a pedir a todos os que achava que nos eram queridos que me ajudassem a cuidar do meu irmão, mas ninguém nos estendeu a mão. "É demasiado reguila...", "Já tem 11 anos, se fosse um bocadinho mais novo...", "Já não tenho idade para cuidar de crianças, lamento"...
Quando todo o chão que havia no mundo se desmoronou debaixo dos meus pés, coube como nunca podia ter deixado de ser, ao pilar mor da família a tarefa de cuidar do seu mais fágil membro, e aceitou-o sem mais reservas, e com o pragmatismo que sempre teve: "Estamos cá uns pelos outros, família é isso".

Não foi fácil, cuidar de uma criança á medida que sentia que a doença a consumia, retirando-lhe aos poucos a chama de viver. Acho que o que lhe restava na vida era garantir que ficava completo o trabalho que a minha mãe não tinha conseguido terminar, que era ver o meu irmão adulto e no caminho certo. E aí pode descansar...

Foi sepultada numa encosta da terra onde viveu a sua vida toda, com uma bela vista para o mar.

Um beijinho avó, vamos ter muitas saudades tuas...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E lisboa nunca mais foi a mesma...



João Serra, o famoso senhor do adeus, faleceu ontem aos 80 anos. Estava todos os dias, vestido a rigor no saldanha a dizer adeus ás pessoas que por lá passavam. Toda a gente acenava de volta. Um gesto que mesmo tão simples colocava na cara de quem passava um sorriso.

E lisboa nunca mais foi a mesma...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010


Hoje sinto que perdi um pedaço de mim
que uma grande parte de mim se desvaneceu
Quando todas as outras portas se fecharam
tu abriste-me a tua, cuidaste de mim como
ninguém e hoje em dia o que sou devo a ti
fizeste-me passar bem pelos momentos mais difíceis
e estavas lá para mim quando pouco mais eu tinha!
Vivias para dar o que podias,
Trabalhavas imenso…
Sempre foste uma mulher de armas,
e nada te podia faltar enquanto trabalhavas
Tudo o que fazia era bem feito!

Tinha o seu feitio,
Mas a isso, nada lhe era combatido
Pois, quem mal aos seus fizesse,
a ela a incitava.
Perdi-a…
Com imensa dor que não recupero,
mas a ela, neste Mundo tudo devo

Espero que para onde vás, alguém
cuide de ti como tu dos outros cuidas-te
A ti desejo-te tudo de bom!
e que algum dia nos reencontremos!

:(
Décio

Começou assim

 

Á uns anos atrás, andava eu na escola secundária e o meu professor de informática da altura (um porreiraço, dava-me boleia para a escola para não ter que subir o caminho do combóio a pé) emprestou-me este livro. Ainda estou para lhe entregar, quando o vir vou certamente lembrar-me disso (e do nome do homem, esperemos).

Hoje em dia não programo mais em basic, brinco com coisas bem mais giras, no entanto foi o que me fez despertar para o que hoje é a minha profissão (e acho que tenho algum jeito, modéstia á parte).
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Casa nova

 

Hoje cheguei a casa ás nove e meia da noite, coisa rara. Não chegava tão cedo a casa desde... bem, desde que me lembro na verdade. Desde que cheguei aqui á capital sempre fui morar para cascos de rolha, primeiro para os lados de queluz, depois (achando-me fino) para cascais. O resultado disto é que estás sempre refém de ter que pegar no carro para chegar a casa, e se trabalhares ás mesmas horas que o povaço estás tramado que vais ficar no trânsito como toda a gente.

A modos que vir para mais ou menos perto do trabalho e não ter que pegar no carro todos os dias, é algo de verdadeiramente refrescante. Pena a vista, só se vê prédios daqui, bah!

Mas não se pode ter tudo, não é verdade?
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