domingo, 20 de junho de 2010

De volta

Regresso ao activo ao fim de umas semanas de férias lá longe, de alguma forma retemperado, de outra forma extenuado. Férias sabem sempre a pouco, mas é bom voltar para exercer uma profissão que se ama, e eu nesse capítulo confesso que não me vejo a fazer outra coisa. Adoro os desafios que a minha profissão me proporciona e não a trocava. Certo que muitas vezes peca por ser algo monótona, por não ser exactamente aquele brainstorming diário que eu sempre achei que deveria ser, nos anos que antecederam a minha entrada na universidade. Sempre achei que a universidade me iria permitir investigar e desenvolver novos métodos, novas tecnologias... pensei de facto, como todo o adolescente que quando crescesse ia mudar o mundo. Afinal acho que o mundo não quer ser mudado, e se calhar também não é assim tão mau para que seja alterado, e eu... confesso: não tenho força para isso.
Durante muito algum tempo achei que iria seguir uma carreira na aviação, o mundo dos aviões fascináva-me verdadeiramente, mas quando chegou a hora da verdade optei por seguir o destino da informática. Já tinha tomado a minha decisão á algum tempo, não foi própriamente tomada a atirar uma moeda ao ar. O desafio mental de criar processos com linguágens de computador era algo que me apaixonava mais do que conduzir aparelhos gigantes e com asas. Muitas vezes dou por mim a pensar no que teria sido diferente se seguisse essa outra carreira... concerteza não estaria hoje aqui á frente deste computador a escrever este post. Será que teria um blog sequer? Seria uma pessoa mais feliz? Mais solitária? Mais triste?... não sei - aliás, nunca vou saber, mas é um exercício mental interessante imaginar como poderia ter sido.

Este era para ser um post sobre o José Saramago que morreu no outro dia, mas acabei por divagar. Também pensei em não colocar pontuação no post em homenágem ao homem, no entanto achei que não o deveria... não consigo, os pontos dão me jeito, confesso.
Não concordava com a maior parte dos pontos de vista do homem, políticos ou não. Muitas vezes vinha lá castelo nas ilhas canárias, localizado no alto do seu enorme ego, mandar postas de pescada sobre o país que tinha abandonado. Acho que lá no meu amago sempre achei que trocar-nos por "nuestros hermanos" era um pequeno acto de traição e nunca dei muita importância ao que o homem dizia. Defendia com teimosia aquilo em que acreditava, era um homem de princípios - e não tinha medo de os afirmar. Por isso, ainda que não concordando com ele, tiro-lhe o chapéu.
Não conheço a sua obra, sou algo avesso a livros, confesso. Sei reconhecer a importância social que teve durante a revolução de 74 e nos anos que se sucederam, e sei reconhecer também a visibilidade mundial que deu ao nosso pequeno país com a sua enorme obra. É bom para o ego colectivo, volta e meia ser mencionado na imprensa estrangeira por algo que não é mau.

Outra pessoa que desapareceu por estes dias foi Maria Aurora. O meu público não-madeirense não fará certamente ideia de quem seja, mas era uma senhora que tinha um programa de televisão na RTP-Madeira, já desde á muitos anos. Chamava-se "Letra dura e arte fina" e era chato como o caraças, principalmente porque interrompia as séries giras de sábado á tarde com coisas "culturais". Na altura não havia playstations ou computadores, e durante muito tempo não tinha bicicleta nem amigos para brincar perto de casa, pelo que tinha que voltar aos meus legos para algum entertenimento de qualidade. Não via o programa dela na altura, nem algum dia o cheguei a ver. Corro o risco de ser chamado hipócrita por mencionar a sua morte aqui no pasquim, mas reconheço-a como uma pessoa bem disposta que me habituei a reconhecer na TV e pelas ruas da minha cidade. O seu trabalho, apesar de não captar a minha atenção, tinha o seu valor reconhecido por milhares de madeirenses espalhados pelo mundo que religiosamente viam os seus programas, e ajudava sem qualquer dúvida a espalhar conhecimento por esse mundo fora sobre a nossa terra. Era também escritora, jornalista e poetisa, e apesar de nascida no continente - uma madeirense de coração. Não há como não homenagear alguém que ama a sua terra e fala dela de forma tão apaixonada - Maria Aurora era assim, e a ela curvo-me respeitosamente.

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