quarta-feira, 30 de junho de 2010

Já fomos...

Perder contra os espanhóis nunca é bom, é algo que está enraizado na nossa cultura quase milenar. Os miras já andam á quase 900 anos a querer tomar conta cá do burgo e isso parecendo que não, torna-se desagradável.

Facto é que, eu sou madeirense, e como tal para mim um espanhol é apenas mais um estrangeiro, aliás acho que a primeira vez que vi um foi quando um guarda fronteiriço espanhol deixou-me por o pé em terras espanholas apesar de não ter passaporte, aos 11 anos, daí que também não faz muito sentido eu andar a embirrar com eles. É um povo bacano e o facto de eles nos ignorarem na maior parte do tempo tem mais a ver com a nossa mania de inferioridade do que com qualquer outra coisa.

No entanto, não me agrada especialmente perder no futebol contra nuestros hermanos, mesmo sabendo que eles jogaram melhor e portanto mereceram, e que a nossa equipa consistiu de 9 imbecis e 2 jogadores da bola, com um acéfalo a gerir a estratégia.
Continuando, lamento mas não vou torçer por "la roja". Por fortuna do destino devem conseguir chegar ás meias finais, já que o Paraguai, o anexo pobre do Brasil é demasiado suave para a equipa espanhola, mas estou certo que num dia normal nunca conseguirão eliminar uma Argentina ou uma Alemanha. No entanto espero que os espanhóis percam já com o Paraguai, já chega de ter que aturar aquele ego hiper-inflado desde que ganharam a porcaria do campeonato da europa á 2 anos atrás. Ah, e se não for pedir muito, que percam com um auto-golo desse capdevila... melhor, dois auto-golos!

Uma palavra final em relação ao palhaço do juan capdevila: jogadores destes não fazem falta nem bem nenhum ao futebol, que é um jogo bonito. A Espanha ia ganhar na mesma, e com mais mérito, por isso mais do que manchar o jogo em si, manchou a virtude da sua própria equipa. Não vai ser por causa disto que o Ricardo Costa sairá do mundial com mais ou menos mérito, mas este jogo vai ser lembrado por ter sido o jogo em que perdemos com a Espanha, em que o queiroz foi cobarde mais uma vez, e em que o capdevila atirou-se para o chão feito puto birrento com lágrimas de crocodilo. Os espanhóis estão se a cagar para isso, eu sei, e pouca moral têm os portugueses para apontar isto quando foi o próprio Cristiano Ronaldo que á 4 anos numa total imbecilidade fez com que o Rooney fosse expulso num jogo contra a Inglaterra... no entanto eu ainda me lembro desse jogo, que ficou tão marcado pela vitória portuguesa como pela falta de fairplay do meu conterrâneo, e desse carimbo ele nunca mais se livra.
Para o restante campeonato, a minha aposta vai claramente, e por motivos emocionais para a selecção canarinha, que espere que chegue á final e que despache os argentinos (que jogam que se fartam, diga-se de passagem). Eu sei o quanto é importante o futebol e o campeonato do mundo naquelas paragens, e muito francamente acho que aquele povo merece essa alegria. Já fui tirar da gaveta a camisola da selecção brasileira, que guardo ao lado da do meu glorioso. Força Brasil!!

PS: Alguém me arranja uma camisola da Argentina? São giras que se fartam! :)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Família



Á muitos anos atrás, esta música fazia-me sonhar, a olhar á noite pela janela. Isto foi mais ou menos na mesma altura que o meu irmão nascia. Hoje ele faz 22 anos. Por alguma razão lembrei-me desta música e deste filme hoje... se calhar porque estou sozinho e porque sinto falta da minha família, de nós 4.

Um grande abraço, fazes de mim um irmão muito orgulhoso. Não vou poder estar hoje contigo, mas em 3 semanas vamos comemorar isso ;)

Quem não viu, o filme é "An american tail" e é das obras mais raras e mais bonitas que já se fizeram. Vejam, vale a pena.

domingo, 20 de junho de 2010

Brasil

Amo a nação verde-e-amarela, e vou para lá sempre que posso. As pessoas têm algo no Brasil que falta em quantidades astronómicas ao nosso povinho cá plantado do lado errado do atlântico - calor humano e alegria de viver.

Concerteza que há desvantagens, certo, senão não voltaria tantas vezes para cá. Há uma insegurança tremenda em qualquer cidade brasileira de tamanho respeitável e há uma enorme falta de civismo latente numa grande faixa de população, ousava dizer a maior parte dela. Os sucessivos governos que têm passado por Brasília fazem por manter o status quo - uma população ignorante não levanta ondas, faz o que lhe manda e não se chateia muito pela cleptocracia geral em que se tornou o poder político tanto federal como estatal. Qualquer cidade no brasil é um misto de pobreza extrema e luxo abundante, e uma serve-se da outra numa simbiose perfeita, que tornará o país perfeito (ou absolutamente miserável) quando se fundir num só. A nação das favelas está ao serviço da nação dos condomínios luxosos, que andam de mãos dadas um com o outro. Os ricos precisam forçosamente dos pobres para manterem o seu estilo de vida, com mão de obra barata e salários altíssimos que lhes permitem ter um nível de vida que um europeu normal nem sonha. Os pobres precisam dos ricos para o seu sustento diário, porque sem instrução nem ambição, nunca na vida vão chegar a algum lado que não seja a mera subserviência ao seu patrão. Ambos os mundos distanciam-se um do outro apesar de inerentemente estarem ligados como gémeos siameses, e não conseguirem viver um sem o outro.

De modo a que qualquer terrinha com o seu bairro chique tem o seu inverso que é a sua favela que lhe serve, e qualquer cientista natural explica fácilmente que toda a lei do mundo tende ao equilíbrio, e mais dia menos dia acredito que é aí que se chegará, a um equilíbrio do sucesso ou no falhanço, esperemos que no primeiro.

Mas como dizem muitos amigos meus cariocas, se não fosse a insegurança, o Rio de Janeiro era o lugar perfeito para morar - era concerteza, mas aí Lisboa teria um problema grave,  pois perderia todo o sentido morar nela.

Voltando ao assunto inicial, o Brasil é meio que a minha pátria adoptiva, se calhar não tanto por eu amar esse país, mas por esse país me amar. Sinto-me mais em casa lá do que na minha terra, e posso dizer com toda a certeza que nunca fui tão bem acolhido em nenhum outro país. Possuindo pouco ou muito toda a gente faz o seu melhor para me receber, e um colchão no chão de uma casa, seja em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Teresópolis ou em Búzios torna-se no lugar mais confortável para se dormir. Sinto genuínamente que sou benvindo em todos os lugares para onde fico, e quando vou embora, o "volte quando quiser" significa exactamente isso.

No Brasil eu sinto uma alegria de viver por todo o lado, é um país fervilhante de alegria e de vida, algo que muitas vezes falta ao nosso anafado e cinzento Portugal.

Para os meus amigos do outro lado do atlântico, e em especial para os meus queridos anfitriões em Búzios, confessos leitores do meu pasquim, deixo um grande abraço, e a promessa de voltar ao vosso país sempre que puder.

De volta

Regresso ao activo ao fim de umas semanas de férias lá longe, de alguma forma retemperado, de outra forma extenuado. Férias sabem sempre a pouco, mas é bom voltar para exercer uma profissão que se ama, e eu nesse capítulo confesso que não me vejo a fazer outra coisa. Adoro os desafios que a minha profissão me proporciona e não a trocava. Certo que muitas vezes peca por ser algo monótona, por não ser exactamente aquele brainstorming diário que eu sempre achei que deveria ser, nos anos que antecederam a minha entrada na universidade. Sempre achei que a universidade me iria permitir investigar e desenvolver novos métodos, novas tecnologias... pensei de facto, como todo o adolescente que quando crescesse ia mudar o mundo. Afinal acho que o mundo não quer ser mudado, e se calhar também não é assim tão mau para que seja alterado, e eu... confesso: não tenho força para isso.
Durante muito algum tempo achei que iria seguir uma carreira na aviação, o mundo dos aviões fascináva-me verdadeiramente, mas quando chegou a hora da verdade optei por seguir o destino da informática. Já tinha tomado a minha decisão á algum tempo, não foi própriamente tomada a atirar uma moeda ao ar. O desafio mental de criar processos com linguágens de computador era algo que me apaixonava mais do que conduzir aparelhos gigantes e com asas. Muitas vezes dou por mim a pensar no que teria sido diferente se seguisse essa outra carreira... concerteza não estaria hoje aqui á frente deste computador a escrever este post. Será que teria um blog sequer? Seria uma pessoa mais feliz? Mais solitária? Mais triste?... não sei - aliás, nunca vou saber, mas é um exercício mental interessante imaginar como poderia ter sido.

Este era para ser um post sobre o José Saramago que morreu no outro dia, mas acabei por divagar. Também pensei em não colocar pontuação no post em homenágem ao homem, no entanto achei que não o deveria... não consigo, os pontos dão me jeito, confesso.
Não concordava com a maior parte dos pontos de vista do homem, políticos ou não. Muitas vezes vinha lá castelo nas ilhas canárias, localizado no alto do seu enorme ego, mandar postas de pescada sobre o país que tinha abandonado. Acho que lá no meu amago sempre achei que trocar-nos por "nuestros hermanos" era um pequeno acto de traição e nunca dei muita importância ao que o homem dizia. Defendia com teimosia aquilo em que acreditava, era um homem de princípios - e não tinha medo de os afirmar. Por isso, ainda que não concordando com ele, tiro-lhe o chapéu.
Não conheço a sua obra, sou algo avesso a livros, confesso. Sei reconhecer a importância social que teve durante a revolução de 74 e nos anos que se sucederam, e sei reconhecer também a visibilidade mundial que deu ao nosso pequeno país com a sua enorme obra. É bom para o ego colectivo, volta e meia ser mencionado na imprensa estrangeira por algo que não é mau.

Outra pessoa que desapareceu por estes dias foi Maria Aurora. O meu público não-madeirense não fará certamente ideia de quem seja, mas era uma senhora que tinha um programa de televisão na RTP-Madeira, já desde á muitos anos. Chamava-se "Letra dura e arte fina" e era chato como o caraças, principalmente porque interrompia as séries giras de sábado á tarde com coisas "culturais". Na altura não havia playstations ou computadores, e durante muito tempo não tinha bicicleta nem amigos para brincar perto de casa, pelo que tinha que voltar aos meus legos para algum entertenimento de qualidade. Não via o programa dela na altura, nem algum dia o cheguei a ver. Corro o risco de ser chamado hipócrita por mencionar a sua morte aqui no pasquim, mas reconheço-a como uma pessoa bem disposta que me habituei a reconhecer na TV e pelas ruas da minha cidade. O seu trabalho, apesar de não captar a minha atenção, tinha o seu valor reconhecido por milhares de madeirenses espalhados pelo mundo que religiosamente viam os seus programas, e ajudava sem qualquer dúvida a espalhar conhecimento por esse mundo fora sobre a nossa terra. Era também escritora, jornalista e poetisa, e apesar de nascida no continente - uma madeirense de coração. Não há como não homenagear alguém que ama a sua terra e fala dela de forma tão apaixonada - Maria Aurora era assim, e a ela curvo-me respeitosamente.