segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Acerca de mulheres e homens


Voltava para casa hoje depois de uma jantarada em Lisboa entre amigos, e vim pela marginal que liga Lisboa a Cascais, vendo o reflexo da lua no rio e ouvindo um programa na rádio intitulado "o meu sexo é melhor que o teu", um programa de debate ora entre 3 mulheres, ora entre 3 homens, que consiste em deixá-los a falar na rádio sobre temas corriqueiros do dia-a-dia da eterna guerra dos sexos. Já tinha ouvido esse programa noutra ocasião, mas não lhe dediquei muita atenção, primeiro porque eram os homens a falar nessa altura, depois porque estava mesmo sem paciência - há dias em que é preferível ouvir qualquer música suave e relaxante a caminho de casa, e tentar não pensar em muita coisa, simplesmente tirar prazer de conduzir a ver o mar, que é excepcionalmente bonito em noites de lua cheia.

O programa desenrolou-se com 3 senhoras a falar, diria que com idades entre os 30 e os 40 anos, a falar do sexo oposto e do seu próprio. É curioso que quando se colocam 3 mulheres frente a frente, apenas com a companhia de si próprias e dos microfones, consegue-se ter um pequeno vislumbre desse misterioso mundo feminino, ao qual é constitucionalmente vedado o acesso a todo e qualquer homem (exceptuando os gays, presumo). As apresentadoras como que se abstraem e começam a falar, como que se por vezes se esquecessem que estão a falar para um país inteiro na rádio (homens inclusive), é engraçado.

E assim, dá para perceber, que tal como os homens não entendem nada acerca de mulheres, as mulheres tão pouco entendem de homens. Os clichés estão todos lá, acerca dos homens: o de sermos básicos, influenciáveis, impulsivos, manipuláveis... eu adoro uma mulher com espírito, que desafie o meu intelecto, que me faça pensar. Por isso, e por favor, não vamos cair no cliché tradicional "Os homens são todos iguais"... porque se acham isso, andam a ir aos sítios errados, andam a conhecer as pessoas erradas, ou então... andam a saír pouco de casa porque nós homens, somos perfeitamente capazes de vos surpreender, digo isso com toda a convicção. Essa ideia de que os homens têm aquele instinto predatório que os faz andar na noite á procura de uma (qualquer) presa fácil é perfeitamente falaciosa. Muito francamente, acho que a tendência que muitas mulheres têm para nos generalizar têm a ver com um qualquer instinto de defesa, porque ver um homem como um organismo acéfalo e previsível é mais tranquilizante do que tentar compreendê-lo - isso afinal faz parte da natureza humana.

É óbvio que a maior parte das mulheres, só pelo único e exclusivo facto de o serem (mulheres) vão saír á noite e vão ser assediadas por homens, mas já pararam para pensar quem são esses homens que vos abordam e brindam-vos com frases do tipo "O teu pai deve ser terrorista; saíste-me cá uma bomba!!!" ou "Não és Avé-Maria, mas és cheia de graça!" não representam de maneira nenhuma a população masculina? Contem lá, quantos homens é que vos abordam numa noite normal? 2? 20? ... 200? Quantos passam por vós e assobiam e mandam filetes? Quantos olham-vos de cima a baixo numa discoteca e deitam saliva pelo canto da boca? agora... vamos por alguns instantes fazer as contas ao contrário: quantos nem vos olham? Quantos passam por vocês e nem dão por nada, quantos vos encaram de frente e desviam-se numa discoteca sem sequer baixar os olhos para vos olhar o decote? Quantos vos tratam apenas como uma pessoa? Quantos até vos olham e acham que são bonitas e apenas dão um sorriso. Desses não é feita contabilidade? São mais ou menos do que os outros? Já pararam um pouco para pensar?

É normal que se veja uma mulher bonita e queira-se falar-lhe, mas... que abordagem é que consideram aceitável? Tendo em conta que não a conhecemos de lado nenhum, não sabemos rigorosamente nada sobre ela e logo... á partida nenhum de nós tem nada em comum. Mais, sendo óbvio que uma abordagem tem com toda a certeza um cariz sexual, não poderia ser de outra forma, como é que é suposto de disfarçar essa intencionalidade? Dizendo que a intenção é única e exclusivamente de fazer amigos e conversar... numa discoteca cheia de barulho e empurrões, com 100 decibéis a nos fritarem os tímpanos?

Dificilmente uma discoteca é um sítio bom para conhecer alguém. É a mesma coisa que tentar conhecer gente no meio de uma lota de peixe no frenesim de um sábado de manhã. Admito que as pessoas têm bastante melhor aspecto na discoteca do que na lota do peixe, mas o que acontece é:

- Por mais que as mulheres se vistam de uma forma mais cativante e atraente, fazem-o para si próprias e para as amigas, não o fazem para mais ninguém (nem para o namorado, se tiverem).
- Saem de casa e ligam o modo de auto-defesa e "protegem-se" umas as outras, formando grupos estanques de forma a que a "intromissão" externa seja dificultada.
- Se um homem chega perto e tenta engendrar uma conversa, é porque é mulherengo e vai com todas, se fica no seu canto e não dá bola para ninguém, então é enrascado, desinteressante e não vale a pena.
- Se por acaso passa pelo recinto um macho alfa ou alguém dos morangos com açúcar, empurram-se, atropelam-se para o seduzir, caso contrário ficam perfeitamente na sua rodinha de meninas para ninguém chatear, sim, porque Deus livre ás mulheres portuguesas mostrarem interesse em alguém. Não, as regras estão escritas e são muito simples, elas vão escolher entre aqueles que vierem "picar o ponto" aquele que tiver melhor aspecto. Provavelmente serão todos rejeitados, quanto mais não seja porque aqueles que foram lá picar o ponto, são os caçadores da noite que atacam tudo o que cheira a estrogéneo.
Não estão a ver aqui um contra-senso, uma qualquer espécie de ciclo vicioso?

Eu acredito que é resultado de um medo, de uma ignorância, de uma insegurança intrínseca e culturalmente enraizada. Parece que em Portugal nunca fomos educados para lidar com o sexo oposto, e no fundo temos medo dele. As mulheres não compreendem os homens porque a mãezinha avisou-as que eles apenas as querem levar para a cama e deitá-las fora no dia seguinte, por isso encaram-os como as gazelas encaram os leões, organizando-se em grupos e expelindo os ataques... e os homens têm medo de levar com aquele olhar de desprezo que lhes arruíne para sempre a auto-estima e nem se dão ao trabalho, acham que é demasiado o risco. Andamos a sair á noite numa autêntica guerra fria, em que temos que lidar uns com os outros (sexos, entenda-se) numa dança perigosa em que ambos são potências nucleares e tratam-se com pinças para não levarem a qualquer momento com um míssil.

Considero-me uma pessoa culta, de mente aberta. Viajei já o suficiente para conhecer mais ou menos bem gente estrangeira, a sua cultura, a sua maneira de ser. Mas por mais que viaje, que conheça sítios diferentes, não consigo compreender esta atitude beligerante com que portugueses e portuguesas se encaram todos os dias. Talvez por termos vivido tantos anos numa estúpida ditadura religiosa, que castrou gerações de portugueses, e terminou (dizem) em 74, muito depois da revolução sexual ter se espalhado em todo o mundo ocidental. Andamos á 30 anos a tentar fazer a revolução sexual, mas não sabemos bem como, ninguém nos disse como, temos medo, milhões de preconceitos, mitos infundados, tabús enraizados... e nisto, como em tudo somos afinal como é claro, portugueses.

Sou daqueles que recebem com braços abertos a emigração. Temos tudo a ganhar com a vinda de povos estrangeiros, temos tudo a aprender com gente de toda a parte do mundo. Eu sonho com o dia em que Lisboa seja uma frenética mistura de raças, línguas, credos e cores, em que a avendida da liberdade seja uma versão bem nossa de Oxford street em Londres e que o chiado se assemelhe ao bairro da liberdade em são paulo. Que o martim moniz se pareça ao Oudezijds Achterburgwal em Amesterdão.

Tenho noção que este post é polémico, e tenho a noção que se calhar generalizei um pouco. Atirem-me com os vossos comentários, concordem e discordem, estou curioso :)

6 comentários:

Jessy disse...

cherry, as mulheres ate podem entender pouco de homens.... mas os homens nem tentam entender as mulheres... embora existam excepções, obviamente... mas pra ai um caso entre 14 987 lol
e cada vez mais eu m convenço de que realmente os homens sao sim praticamente todos iguais...mais baixos, mais magros, tudo farinha do mm saco... ha mtos a menosprezar a raça masculina, dai q essa ideia se generalize, o q leva a que nos mulheres sejamos quase que obrigadas a criar esse instito de defesa... principalmente qdo saimos a noite... e so sendo gaja e da pa entender estas coisas, perceber os fretes e a gentinha ruim k nos aparece... e eu acho q as discotecas nao sao um bom sitio pra se conhecer alguem, embora tb existam excepções... e nao tem a ver com o medo do sexo oposto, mas depende da maneira como cada mulher lida com os homens... depende dakilo k ja passaram, pk as mulheres n s eskecem facilmente dakilo k ja passaram... e não é por aí que têm uma mente menos aberta...

obviamente tudo depende de circunstâncias concretas, mas pessoalmente eu raramente conheço alguem em discotecas, raramente dou conversas pk sabes k eu sou estupidaaaaaa looooool

beijooooooooooo***

Ganika disse...

Bem... Com o "tamanho" deste post uma mulher burra, chata e portuguesa (cm eu) assusta-se e vai-se embora :P

Camila disse...

Meu querido amigo,
Já não vejo a hora de vê-lo desembarcar aqui na "cidade purgatório da beleza e do caos". Já estou até imaginando nossas conversas entre o sol quente e água de coco. Vamos conversar muito sobre relações humanas e guerra dos sexos. MAs vou logo te adiantando (e nem precisava pq vc já sabe) que aqui no Rio a banda toca de forma diferente. E me assusta do mesmo jeito. Eu só espero que possamos, juntos, compreender melhor o que rola nesse universo de homens e mulheres carentes por natureza. Beijocas.

Vida louca...vida breve disse...

Meu querido amigo,
Já não vejo a hora de vê-lo desembarcar aqui na "cidade purgatório da beleza e do caos". Já estou até imaginando nossas conversas entre o sol quente e água de coco. Vamos conversar muito sobre relações humanas e guerra dos sexos. MAs vou logo te adiantando (e nem precisava pq vc já sabe) que aqui no Rio a banda toca de forma diferente. E me assusta do mesmo jeito. Eu só espero que possamos, juntos, compreender melhor o que rola nesse universo de homens e mulheres carentes por natureza. Beijocas

Filipa disse...

Não podia deixar de comentar este post, concordo contigo quando dizes que homens e mulheres andam a aprender a se relacionar, o que acho perfeitamente natural, a nossa liberdade sexual é extremamente recente comparativamente com outros países.
Acho que as circunstâncias fazem a ocasião, tanto homens como mulheres acabam por exprimir comportamentos de indiferença numa saída à noite, o que não quer necessariamente dizer que as mulheres ajam de forma repulsiva e os homens tenham medo da rejeição. Todos nos saímos à noite para divertirmo-nos com os amigos, o que torna natural o facto de não estarmos atentos ou simplesmente não queiramos conhecer outra pessoa. Por outro lado acho que em qualquer circunstância a aproximação das pessoas e não necessariamente dos sexos oposto é por si só complexa. Se pensares que é difícil fazer conversa com alguém que acabaste de conhecer imagina com alguém que não conheces de parte nenhuma..... Acho que tudo isto leva à naturalidade da situação que defendes ser protecção feminina.
Não concordo porém quando dizes que achamos que os homens são todos iguais, graças a Deus que não o são, a diversidade existe no universo masculino e ainda bem que assim o é. Acho que dizer que os homens são todos iguais está para os homens como todas as mulheres querem casar e ter filhos está para as mulheres.
Não concordo, nem entendo quando dizes que as mulheres se atropelam e empurram para seduzir apenas o macho alfa, ou alguém dos morangos??? Sinceramente não percebi.... Agora sou eu que digo “ Se achas isso andas a ir aos sítios errados ou a conhecer as pessoas erradas”
E não concordo em absoluto com a história de que “a mãezinha avisou-as que eles apenas as querem levar para a cama e deitá-las fora no dia seguinte, por isso encaram-os como as gazelas encaram os leões, organizando-se em grupos e expelindo os ataques”... Sinceramente não começo nenhuma mulher a quem a mãe tenha dito isso, alias a minha mãe sempre me disse que o que se faz à noite se faz de dia.....Acho que isso sim é um cliché, essa história de que os homens querem levar as mulheres para a cama. Como mulher fico magoada com essa afirmação porque parece que ninguém se lembra que tenho querer, essa afirmação acaba por tornar o meu universo (feminino) em algo frágil, triste, depressivo e muitoooooo deprimente.
Quando uma mulher e um homem decidem dormir juntos numa noite, não passa disso mesmo, uma noite, na minha opinião ninguém usa ninguém, presume-se que ambos são adultos e ninguém está à espera que no dia a seguir se vislumbre uma alma gemia.
Poderia por a questão desta forma, porquê é que as pessoas têm tendência a cogitar que nos sentimos usadas por algo que quisemos fazer de livre e espontânea vontade???? Acho que é aqui que reside o cerne da questão, em termos históricos as mulheres foram educadas para casar e ter filhos, caso se envolvessem sexualmente com um homem deixavam de servir os padrões da sociedade em que viviam, mas isso foi há muito tempo atrás..... Será que por ser mulher não posso ter uma noite de sexo sem que o dia a seguir implique envolvimento??? Será que por ser mulher não posso simplesmente não querer conhecer ninguém sem que isso signifique protecção da minha parte???
Como mulher nunca me senti a gazela entre os leões até porque as gazelas eventualmente acasalam….

ram disse...

(tema bastante interessante. vou abordá-lo do ângulo que mais me interessa neste momento)

vivemos de estereótipos!

(lançada a 'bomba', passo a tentar explicar o meu ponto de vista :))) )

a maioria das pessoas vive de estereótipos. uma das causas que o determina é que, em geral, evitamos pensar. pensar dá trabalho: é preciso aprender porque não nos ensinam, pode ter consequências nefastas a nível pessoal e colectivo porque começamos a perceber que a maior parte do que está instituido não faz sentido à luz do bem comum, pode levar a situações extremas como o suicídio (pensei nisto) , etc, etc. é mais fácil rotular/categorizar/etc do que, com espírito crítico, analisarmos as nossas experiências e formarmos as nossas próprias opiniões tanto quanto possível com dados objectivos e visões imparciais (algo nunca totalmente possível, dada a nossa natureza subjectiva das nossas emoções e tudo o que carregamos de preconceitos, dogmas, tradições, etc, criados por nós e induzidos por terceiros (pais, expecialmente) às vezes sem darmos por isso). aliás, é assim que o nosso cérebro funciona - inconscientemente categorizamos todas as nossas experiências - pelo que para mudarmos isso há que passar primeiro por um processo consciente de análise crítica do que nos rodeia (e de nós próprios) que, a pouco e pouco, se tornará inconsciente - um hábito. e criamos condições para que a mente se abra...

por outro lado, as sociedades precisam de criar estereótipos porque é a forma mais fácil de 'controlar' as massas. há, portanto, uma grande força nas sociedades (cultura) que influencia o indivíduo (para além do grupo em que este se insere e da condição humana). e todos sabemos como o ser humano é fraco, facilmente influenciável (especialmente em grupo onde, quiça por artes mágicas, tem uma significativa perda das suas capacidades cognitivas). a maioria de nós é atraído para o caminho de menor resistência, onde facilmente aceitamos determinados comportamentos que estão instituidos. por quem? quando? porque razão? quem está interessado nisso? seria interessante responder a estas questões para cada uma das situações com que nos deparamos em sociedade. isso seria pensar com espírito crítico. dá trabalho! é dificil lidar com pensamentos contraditórios, pelo que é mais fácil aceitar ideias feitas, clichés e esterótipos, que nos indicam que a vida é funciona numa lógica cartesiana e determinística.

repito: vivemos de (ou com base em) estereótipos!

alguns excertos dos comentários anteriores que considero interessantes:

"(...)as mulheres ate podem entender pouco de homens.... mas os homens nem tentam entender as mulheres(...)" [chessy]

precisamente! nem uns nem outros tentam entender-se mutuamente. não-pensar é mais fácil, sendo prática comum aceitar os estereótipos.

"(...)aqui no Rio a banda toca de forma diferente.(...)" [camila]

age-se de maneira diferente porque o esterótipo é diferente. as ideias feitas condicionam os comportamentos.

no meu caso particular acho piada quando alguma mulher me diz que "os homens são todos iguais". começo por afirmar que talvez os homens que ela conhece sejam todos do mesmo 'tipo' - ou seja, o 'problema' poderá até ser dela que 'atrai' personalidades idênticas. invariavelmente, não me entendem à primeira (salvo excepções, que, by the way, as há sempre em qualquer circunstância). teno explicar mas fico por ali se vejo que estamos em 'níveis' diferentes. caso contrário termino dizendo que as mulheres
é que talvez sejam todas iguais, simplesmente porque a maioria delas pensa precisamente que "os homens são todos iguais". o tal ciclo vicioso. a minha opinião é que o não-pensar não tem género. neste aspecto não vejo grandes diferenças entre homens e mulheres (me parece até que as mulheres estão a parecer-se cada vez mais com os homens em certos comportamentos estereotipados. porque será? :))): a maioria opta por não-pensar (e digo 'opta' propositadamente). estamos, por isso, condenados a agir mecanicamente.

finalmente, apesar de haver muitas ideias para trocar sobre este tema, falo no que para mim é o mais importante: a consequência da questão que levantei é que perdemos a identidade. por iniciativa própria ou de terceiros perde-se aquilo que nos torna especiais e únicos. não nos permitimos ser nós próprios ou que os outros sejam eles próprios e, neste caso, perdemos todos. mas, repito, é uma opção de cada um.

termino com um resumo disto tudo :))))


To be nobody-but-yourself
in a world which is doing its best,
night and day
to make you everybody else
means to fight the hardest battle
which any human being can fight;
and never stop fighting

ee cummings (1894-1962)