segunda-feira, 10 de março de 2008

Meu pobre benfica

António Lobo Antunes, numa entrevista para a revista Visão, que recordo ter lido aqui á uns anos, dizia o seguinte a certa altura quando questionado sobre a sua presença na guerra do ultramar:

«Visão: Ainda sonha com a guerra?

António Lobo Antunes: (...) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, punhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

V: Parava a guerra?

ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

V: Não vou pôr isso na entrevista...

ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?»


Para uma criança de hoje, que sentido fazem estas palavras? Acho que rigorosamente nenhum. Olham para a televisão e vêm 11 tipos vestidos de vermelho com ordenados faraónicos a trocarem a medo a bola de uns para os outros, jogando paupérrimamente e exigindo tudo e mais alguma coisa.
Eu não sou do tempo do Chalana, nem do Torres, nem do Eusébio. Lembro-me quando era pequenino de me contarem as glórias dos anos 60 e 70, jogadas geniais, goleadas épicas, taças dos campeões europeus ganhas com brilhantismo.
Eu sou do tempo em que levamos 7 do sporting (nunca me vou esquecer desse dia), da taça dos campeões perdida para o PSV em 1988 (Veloso, ainda hoje estás a pagar por isso, o teu filho virou lagarto!) e da outra perdida para o Milão em 1990.
Quando eu era pequeno, o meu benfica não fazia os brilharetes do tempo dos meus pais, não ganhava 4 campeonatos de uma assentada, não goleava sem misericórdia os pobres adversários, mas ia á guerra, metia respeito. Podia não ganhar a liga dos campeões, mas chegava á final e ponha o adversário com medo.

O benfica do tempo dos meus pais, era o orgulho de uma nação, num país pobre, analfabeto, esfomeado e "orgulhosamente só", ter uma equipa que ia a santiago bernabéu dar uma coça no Real Madrid ou ao estádio olímpico de turin humilhar a Juventus, era a única coisa que podia trazer alguma alegria para a pobre pátria com os relatos na rádio da tasca da esquina dando conta dos golos que o eusébio marcava por essa europa fora, ou as pálidas imagens a preto e branco emitidas por uma jovem RTP que ainda á poucos anos tinha colocado portugal no século XX.

Neste contexto, a entrevista com o António Lobo Antunes faz todo o sentido, mas para as crianças de hoje em dia, cujos pais viram última vez o benfica a fazer alguma coisa em 1990, esta história é perfeitamente ridícula.

Não sei quanto é que ganhava o Eusébio em 1962 quando despachamos os espanhóis por 5-3, mas de certeza absoluta que não eram fortunas como esta maltinha anda a ganhar hoje.

Hoje, ir ao estádio do meu benfica é uma profissão de fé, faz lembrar os tempos do Caniggia. É turtuoso vê-los a jogar, o que parece é que lhes obrigam a estar ali durante 90 minutos, para poderem ir depois á tesouraria levantar o cheque. Não há respeito pelas pessoas que ficam ali a torçer incondicionalmente para que aqueles 11 façam um golo.

Ser adepto de futebol é uma coisa perfeitamente irracional. Sofremos, gritamos, temos quase ataques cardíacos por causa de 11 homens que andam para ali a correr num campo relvado e a chutar uma bola. Não faz sentido nenhum, mas quando a nossa equipa ganha, é uma alegria imensa, o pobre torna-se rico, o esfomeado torna-se farto, o chato torna-se alegre.
Mas é possível deixar de gostar de futebol, eu tenho nos ultimos anos submetido a mim mesmo a uma desfutebolização á força, e tenho conseguido, a ponto de uma derrota já não ter qualquer significado, é apenas mais uma para a já extensa colecção do meu outrora "Glorioso".
O meu clube foi o clube da minha infancia, não é aquele colectivo de artistas da bola que anda por lá agora.

PS. Rui Costa, continuas a ser o maior!

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