segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Como é que é mesmo!??

A propósito da política do governo em relação ao fecho de urgências em sítios remotos, também a propósito da imprensa que a cada dia que passa insulta o papel em que imprime os seus vícios, e ainda a propósito do povo português que custa a largar a estupidez generalizada em que Salazar nos enfiou durante os seus 36 anos de ditadura.

Quando se lê a imprensa por uma ordem cronológica diferente que originalmente foi públicada, chegam-se a conclusões inesperadas. Passo a explicar: Este fim de semana, li a página principal de uma conhecida marca de acendalhas (vulgo Correio da Manhã) onde figurava em grande destaque datado de dia 23 de Janeiro, quarta feira, sobre o caso de um habitante de Castedo, Alijó que supostamente tinha morrido á espera do INEM, onde a "família indignada" gritava por justiça e pedia a cabeça do primeiro ministro, e ministro da saúde, e director do INEM, e sabe-se lá quem mais. Para além da fotografia da família em pose "indignada", aparecia o irmão da pobre vítima a dizer com toda a revolta, tristeza e outros adjectivos mais que a equipa editorial do correio da manhã encontrou no dicionário de português, que (e passo a citar) “Se a Urgência de Alijó estivesse aberta e a VMER viesse mais cedo o meu irmão certamente ainda estaria vivo”.

Entretanto parti-me a rir...

Isto porque antes de ler a notícia, já tinha assistido na SIC á gravação que o INEM disponibilzou ao público no dia 24 de Janeiro, onde se assiste a uma autêntica paródia enquanto a operadora do INEM tenta assistir uma pessoa que tinha caído das escadas abaixo perante a inércia da familia e dos bombeiros. A conversa entre a operadora do INEM e o irmão da vítima (pelo menos a parte que nos interessa da conversa) vai mais ou menos assim:

- Bom, quer uma ambulância aí em sua casa? - Diz a senhora do INEM já muito irritada.
- Tem de vir cá a guarda, não é?
- Mas quer a Guarda ou quer a ambulância?
- Vale mais a Guarda…
- Então se é só a Autoridade que quer, vai desligar e voltar a ligar o 112 e pede a Autoridade. Se há pessoas feridas, eu mando-lhe uma ambulância.
- Não, não, ele morreu…
- Morreu?!
- Deve ter morrido…
- É homem ou mulher?
- Homem
- Com que idade?
- 49, mais ou menos.
- 40 e quantos??
(silêncio)
- Quantos anos tem?... ora diga-me senhor?!
- 44!
- 44 anos. E ele já estava doente ou foi agredido?
- Estava doente já.
- Com quê?
- Caiu!
- Oh senhor, o senhor é familiar dele?
- Sou o irmão.
- Então, mas ele já estava acamado?
- Não! Ele estava era em casa e caiu! Ia a descer as escadas e caiu…
- E o senhor disse que ele morreu?
- Está morto.
- E ele não respira?
- Não.
- Olhe, vai desligar que eu daqui por um bocadinho volto a ligar.

Podem ver o vídeo todo aqui

Ora bem... isto parece-vos a conversa de um "irmão indignado" ??? Acham mesmo que a culpa do homem estar morto é do INEM? Ou de não haver urgência de Alijó aberta, ou de o VMER ter demorado muito tempo a chegar?
Acham mesmo que a preocupação do correio da manhã é a de informar de uma maneira responsável e imparcial? Ou se eles fazem o possível para serem tendenciosos (para não dizer mentirosos), alarmistas e publicarem futílidades como histórias de capa, cumprindo os propósitos de uma agenda política obscura?

Digam-me por favor se uma freguesia de 2806 habitantes, tem que ter forçosamente uma urgência permanente aberta, mesmo sendo esta uma sede de concelho (!?). Quem é que vai para essa urgência permanente trabalhar? Que trabalho é que vai haver nessa urgência? Não querem também ter uma maternidade no sítio??? Não acham que ter um veículo de intervenção rápida que leve uma pessoa que necessite de assistência para um hospital a sério (neste caso Vila Real, a 50km) é melhor do que ter uma urgência subequipada e com pouca mão de obra a cada aldeiazinha de interior?
Certamente dirão - "O preferível é ter uma urgência permanente a cada aldeiazinha, bem equipada e com médicos disponíveis 24 por dia", ao que vos respondo: não vivemos no mundo das maravilhas da Alice. No mundo real, não é possivel ter um médico por habitante, nem é possível obrigar aos médicos que vão trabalhar lá no raio que os parta! No mundo real, é preciso fazer concessões e trabalhar no sentido de melhorar as coisas de uma forma global. O mundo real é incompatível com utopías. Os jornais estão a bater no governo gratuitamente por causa deste assunto. Não têm razão, limitam-se a pegar num assunto populista, e a simplesmente o arremessar contra o ministro, sabendo de antemão que vão contar com o apoio da populaça que nunca se importa com factos nem com verdades, simplesmente quer uma razão externa óbvia e fácil que explique a sua estupidez, e nisso os média são sempre expeditos: "cá está, o governo é mau porque encerra urgências!" até é uma coisa fácil de decorar.

Muita gente me rogará pragas por estar a dizer estas coisas, e se calhar da próxima vez que passar por anadia, até pode me dar um mal qualquer e morro para lá porque a urgência tá fechada. Pode até ser, da mesma forma que eu este fim de semana, podia ter me partido todo quando fui fazer rappel para a serra da estrela, porque o governo não se tinha lembrado de abrir uma urgência nas Penhas da Saúde. Ah, claro que neste caso, a culpa seria do governo, não da corda que se partiu ou do terreno em mau estado. Mesmo assim, pensando bem, se a corda estivesse em mau estado, a culpa á mesmo seria do governo, porque não tratou de fiscalizar devidamente as cordas de rappel, e se o terreno estava em mau estado, a culpa também seria do governo porque não acolchoou a escarpa com esponja, e não subsitituiu as rochas por esferovite.
Proponho que se crie um ministério do bode espiatório, para dar aquilo a que o povo necessíta com tanta urgência: alguém para culpar por tudo e por nada, já que o José Sócrates não pode acumular tantas funções a este nível.

Á vossa consideração.

Não quero deixar de agradecer á Mafalda por ter-me posto ao corrente da sítuação (tento não ver muita imprensa portuguesa, como já devem ter percebido), e ao blog Quando a Revolução bate à porta... que me forneceu uma inestimável tradução da chamada que involve os bombeiros, a pobre família do morto e a operadora do INEM (grande paciência, parabéns á senhora).

Ah, ainda para finalizar, aconselho vivamente este vídeo do Ricardo Araújo Pereira sobre este assunto, está absolutamente genial!

1 comentário:

ana mafalda disse...

absolutamente surreal !!!