quarta-feira, 21 de novembro de 2007

30 anos do Sacadura Cabral



Foto do Sacadura Cabral (CS-TBR) em 1975 ainda nos Estados Unidos, antes de ser entregue á TAP




Passaram-se 30 anos sobre o acidente do 727 da TAP "Sacadura Cabral" na Madeira.

Era segunda feira de noite do dia 19 de Novembro de 1977, e a tripulação do o Boeing 727-282Adv da TAP vinha de um longo voo desde Bruxelas na Bélgica para a Madeira, com paragem para reabastecimento e entrada de passageiros em Lisboa. Ao fim de pouco mais de 13 horas de serviço, o piloto João Lontrão e co-piloto Miguel Guimarães Leal depararam-se com a dificil tarefa de colocar um jacto comercial de 46 metros e 3 motores, numa pista minúscula de 1600 metros de comprimento. Era uma daquelas noites de tempestade, ventos fortes, chuva torrencial, fraca visibilidade. O 727 é um avião de cockpit analógico, o que significava que a aproximação naquelas condições ficava dependente da capacidade do piloto ver a pista e da análise da agulha do VOR para fazer uma aterragem por instrumentos, mas que na altura não dava grandes garantias.

Lembro-me de aterrar na antiga pista 24 com mau tempo nos aviões de cockpit analógico (727's e 737-200). Não era próprio para cardíacos. Logo após o avião baixar nas nuvens, começava-se a sentir a turbulência e fazia-se um silêncio sepulcral dentro do avião. A unica coisa que se ouvia era o frenético aumentar e diminuir da potência dos motores á medida que o comandante lutava para manter a velocidade de aproximação constante e o ângulo correcto de descida. Á medida que o avião ia descendo com a baía de Machico a estibordo, éramos sucessivamente atirados para um lado e para outro, conforme os ventos furiosos batiam contra o avião, e acho que a maior parte das pessoas nessa altura começava a fazer contas á sua vida. Depois de umas valentes sacudidelas, o avião fazia o flare na pista e esperávamos que o avião batesse (bater é a palavra indicada) com o trem de aterragem no chão, e puxasse os reversos, spoilers e travões ao máximo para parar o avião a tempo. A força de travagem era tanta que se olhássemos para o corredor do avião nessa altura iamos ver todo o tipo de objectos a rolar pelo chão no sentido da frente da aeronave.
Assim que o avião parava na pista, era ouvir os passageiros todos a aplaudir em uníssono a tripulação, como uma plateia a aplaudir trapezistas depois de uma manobra perigosíssima sem rede, com a diferença de que se eles caíssem, morríamos todos.
Quando ele dava a curva de 180 graus para entrar na plataforma de estacionamento, dava para ver logo ali o fim da pista e o precipício até á praia de santa cruz. Há que dar o mérito aos homens da TAP, para pousar um avião ali era preciso ter um misto de sangue frio e loucura, não era definitivamente para todos.

Mas naquela noite há 30 anos atrás, não foi bem assim. Já com duas aterragens abortadas e depois da aproximação difícil debaixo de um temporal, o piloto fez uma planagem demasiado longa sobre a pista e tocou no chão com o trem de aterragem já para lá do meio da pista, com apenas 800 metros de pista restantes, com o avião de lado e a fazer hidroplanagem. Mesmo com os spoilers, reversos e travões ele passou o fim da pista a 80km/h e bateu na pequena ponte de pedra que tinha logo depois do fim da pista e despenhou-se na praia de santa cruz, incendiando-se logo de seguida. No inferno que se seguiu, das 164 pessoas que seguiam no avião, só 33 sobreviveram, a muitas delas com ferimentos graves.

Foi a maior tragédia de que há memória na Madeira, e ficou na memória colectiva de todos, dos pequenos e dos graúdos.

Num ambiente pequeno e tradicional como a ilha da Madeira no final dos anos 70, toda a gente tinha alguém conhecido naquele avião. Eu tinha 2 meses de idade na altura, mas quando cresci o meu pai falava-me de um amigo dele lá do Porto da Cruz que tinha acabado de terminar o curso de medicina e que voltava nesse voo para a madeira para exercer a profissão, e de uma promissora atleta do Nacional (o meu pai era nacionalista ferrenho) que voltava de uma prova de natação na Bélgica. Numa freguesia pobre e de gente maioritariamente analfabeta como o Porto da Cruz, ver um filho da terra que tinha acabado de tirar medicina, morrer naquelas circunstâncias foi uma tragédia. Bem no centro do pequeno cemitério da vila, colocaram os restos mortais do médico que nunca o foi, com uma inscrição na cruz contando ao mundo o seu trágico fim. Deve lá estar até hoje.

Depois disso, acho que a tragédia assombrou toda a gente que aterrava lá, desde o início do silêncio sepulcral até aos aplausos apoteóticos, toda a gente lembrava-se do acidente de 77.

A TAP deixou de voar os 727-200 para a madeira e passou a voar a versão 100, mais curta e mais leve, mais propícia a aterrar na pista minúscula. Na descolagem os pilotos iam até mesmo á ponta da pista, travavam e aceleravam ao máximo antes de largar os travões. Aquele "warm-up" inicial era famoso até entre os continentais.

Entretanto a famigerada pista 24 desapareceu. Deu lugar á 23, com quase o dobro do comprimento. A TAP deixou de voar boeings e segundo a minha corajosa tia Fernanda, a aterragem deixou de ter piada. Diz ela que agora parece que está a andar de autocarro. Aterrar de airbus numa pista de 2800 metros é "coisa de meninas".

Sem comentários: